Manuel António da Mota, um “homem de carácter”

Rui Pedroto 

[O empresário de sucesso e o filantropo de espírito generoso que foi Manuel António da Mota legou à posteridade um exemplo de vida.]

O que define um homem de carácter? Não é certamente ter nascido em berço de ouro. Manuel António da Mota nasceu a 8 de junho de 1913, em Codeçoso, concelho de Celorico de Basto. Oriundo de uma família de médios agricultores, concluiu a instrução primária, passando depois, por doença do pai, a trabalhar nas propriedades agrícolas da família.

Ser um homem de carácter não é certamente acomodar-se ao fatalismo das circunstâncias. Denotando desde muito novo um forte espírito empreendedor, cedo procurou tornar-se dono do seu destino, alicerçando a sua ação numa sólida vontade, determinação e ousadia, atributos marcantes do seu carácter. Coisas que não podem ser pontuais e passageiras. Em 1930, começa a trabalhar como apontador numa empresa de construção, de que se tornaria depois encarregado geral e gerente. Com Joaquim Fonseca e Joaquim Pereira da Silva, constitui a empresa Indústrias Reunidas do Tâmega, que adquire uma empresa de serração de madeiras em Amarante, dedicando-se também à extração de óleos de bagaço. Com Joaquim Fonseca, seu cunhado e os irmãos de ambos, funda em 1946 uma nova empresa de construção, a Construtora do Tâmega.

De alguma forma, os homens de carácter são homens superiores: veem para além do horizonte de quem se centra no seu trabalho, sempre de cara virada para baixo. Manuel António da Mota era um visionário. Atento às possibilidades do real, às potencialidades dos trabalhadores que o rodeavam. E por isso atento, como empresário, à abrangência do mundo, e desde logo a um Portugal onde se falava português, de África à América do Sul. A 29 de junho de 1946 é constituída a Mota & Companhia, tendo Manuel António da Mota como sócios Joaquim Fonseca e Virgílio Martins Ribeiro: a empresa lança-se na exploração florestal e agrícola em Angola. Um homem de carácter não foge ao que é difícil. Trabalhar em África naqueles anos era desbravar a selva. Angola quase nada tinha, a não ser a exuberância dos recursos naturais, a que não estavam habituados os homens e as máquinas. Manuel António da Mota desbravou a mata de Cabinda, concretizou o aeroporto de Angola, usou a pá e a argúcia. Um homem de carácter é mais do que uma política. Sempre soube fazer amigos, conquistando a admiração dos adversários. Prosseguindo intensa atividade em Angola desde a sua fundação até 1974, a Mota & Companhia concretizou no território importantes obras, de que se destacam a ampliação do aeroporto de Luanda e a estrada Luso-Henrique de Carvalho. Estabelecendo, em 1976, o eixo central da sua atividade em Portugal, a Mota & Companhia sempre manteve a sua presença em Angola.

Um homem de carácter é também um homem solícito, atento ao próximo, à esposa, aos filhos, aos amigos, aos que com ele ou para ele trabalham. Um homem de carácter é um homem simples, ainda que saiba pensar mundos complexos. Ou até porque o sabe. Do casamento, em 1948, com Maria Amália Guedes Queiroz de Vasconcelos, tem quatro filhos, Maria Manuela, Maria Teresa, António e Maria Paula, atuais acionistas de referência do Grupo Mota-Engil. Envolve-os no trabalho desde cedo. E também no que deseja transmitir com ele: uma certa forma de resistir à adversidade, que torna sempre mais forte o homem de carácter. Em 1977, em anos bem difíceis da nossa economia, Manuel António da Mota e seus filhos adquirem a quase totalidade do capital da Mota & Companhia. É nesse ano que a empresa ganha o importante concurso público de regularização do Baixo Mondego.

Por vezes, mas nem sempre, os homens de carácter são reconhecidos. Manuel António da Mota é agraciado em 1982 com a Ordem de Mérito Agrícola e Industrial, pelo seu aturado labor de empresário ao serviço do desenvolvimento de Portugal.

Manuel António da Mota faleceu a 21 de agosto de 1995. Uma vida cheia de adversidades e amigos que fez ao enfrentá-las.

Os homens de carácter inspiram-nos. Em 1995, já depois de, em 1987, a Mota & Companhia se ter transformado em sociedade anónima, lançando nesse ano uma oferta pública de venda de parte do seu capital, a Mota & Companhia empreende um ambicioso plano de desenvolvimento estratégico, visando a consolidação, internacionalização e diversificação dos seus negócios, transformando-se deste modo num grupo empresarial de grandes dimensões e apontando o caminho daquilo que é hoje o Grupo Mota-Engil. Sobre o seu exemplo realizou já António José de Almeida um filme, significativamente chamado “Manuel António da Mota, construir uma vida”.

O homem de caráter, o empresário de sucesso e o filantropo de espírito generoso que foi Manuel António da Mota legou à posteridade um exemplo e testemunho de vida que se perpetuam nos seus sucessores e em todos os que foram tocados pela sua presença. A Fundação Manuel António da Mota (FMAM), ao adotar o seu nome, presta assim homenagem à sua memória inspiradora.

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