Machado de Assis e os portugueses

Mauro Rosso

[Machado de Assis – representante proeminente do movimento de ‘nacionalização literária’ brasileira – parece ter sido um dos poucos, senão o único, a valorizar a interação com a literatura portuguesa.]

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As relações de Machado de Assis com os portugueses e a literatura portuguesa adquiriram relevância ímpar no que se refere às influências e orientações literárias na formação intelectual do escritor. No embasamento e no engajamento político, na fundação e na fundamentação do seu pensamento ideológico, há aspectos pouquíssimo notados e conhecidos e ainda mais raramente estudados. Não obstante, foram absolutamente decisivos na vida, pessoal, conjugal, social, bem como na formação e constituição da sua obra, ficcional e não-ficcional, na edificação de sua linguagem e estilo narrativo, e até mesmo no seu embasamento político-ideológico-filosófico.

Do estudo da sua biografia, facilmente emerge a constatação do quanto, por exemplo, as mulheres de origem portuguesa se constituíram não apenas em objeto de especial afeto por parte de Machado, mas sobremodo contribuíram para a aprendizagem da língua portuguesa, influenciando a construção da sua linguagem, no que tange a prosódia, a sintaxe, o léxico e a semântica. Mas vale a pena também considerar que, em parte decorrente desses originários vínculos familiares, Machado desde cedo passou a conhecer autores e obras lusitanos, especialmente os clássicos da língua. Jovem, de parcos recursos financeiros, valeu-se da freqüência regular, contumaz, a bibliotecas públicas e privadas, e de um acurado autodidatismo em suas leituras de formação, realizadas mormente no Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, mas também no Liceu Literário Português, na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, ou no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Com o tempo, Machado foi formando gradativa – e consistentemente – a sua biblioteca pessoal, na qual, se não majoritários pelo menos em quantidade notável, os mais canônicos autores portugueses se fizeram notar.

No extenso painel de seus interesses literários e suas leituras, Machado de Assis constituiu-se um elo decisivo de contato entre as culturas brasileira e portuguesa na segunda metade do séc. XIX: é extenso e significativo o elenco de fraternas amizades cultivadas, desde sua juventude, com autores portugueses, recém-transferidos para o Rio de Janeiro, atraídos pelo ambiente acolhedor e de alta efervescência cultural, mas também marcados por uma evidente qualidade das atividades filosófico-ideológicas, criadas desde 1837 por aqueles que, afastando-se do levante do Porto, fundaram o Real Gabinete Português de Leitura. Pelos anos 1850, encontravam-se radicados no Rio de Janeiro literatos como Francisco Gonçalves Braga, Augusto Emílio Zaluar, Carlos Augusto de Sá, Faustino Xavier de Novais, Francisco Ramos Paz, Ernesto Cybrão, Reinaldo Carlos Montoro, Manuel de Melo, Pedro A. Garção. Todos de alguma influência nas rodas literárias e nos ambientes letrados da capital brasileira.

Realcem-se os relacionamentos, e a convivência intelectual de Machado de Assis, desde logo – ainda que em escala incipiente – na Sociedade Petalógica (criada e incentivada por Paula Brito), em 1854-55, na qual estavam Braga, Zaluar e Garção. Em seguida, no escritório de Caetano Filgueiras – que escreveria o famoso prefácio à 1ª. edição da coletânea poética Crisálidas, de Machado – onde inclusive se constituiu o denominado “Grupo dos Cinco”, composto por Filgueiras, Braga, os brasileiros Casimiro de Abreu – que vivera durante um bom tempo em Lisboa – e Cândido Macedo Junior, a que se juntaria Machado de Assis, em 1857. Depois, um novo grupo, formado por elementos democráticos e liberais, unidos pois por traços ideológicos muito próximos, que vão servir de fermento a uma nova postura política de Machado – tendo como figura central o proscrito francês Charles Ribeyrolles: nele Machado estreitou o seu relacionamento com Augusto Emilio Zaluar, Reinaldo Carlos Montoro, Francisco Ramos Paz, Remigio de Sena Pereira (estes três últimos iriam traduzir, ao lado de Machado e Manuel Antonio de Almeida, a obra de Ribeyrolles, Le Brèsil Pittoresque, sob supervisão e acompanhamento do autor). Todos serão mais tarde participantes e atuantes, com Machado de Assis, no (importantíssimo) jornal O Parahyba, de Petrópolis, e no Correio Mercantil.

Terá sido também decisiva a convivência nos saraus literários da cidade: no Grêmio Literário Português, no Retiro Literário Português (uma dissidência do Grêmio), ou na Arcádia Fluminense (academia onde, em 1864, Machado apresentaria a sua peça Os deuses de casaca). De referir a importância de dois eventos literários bastante significativos: o centenário (aliás, mais comemorado no Brasil que em Portugal) do nascimento de Bocage, em 1865, e o tricentenário do nascimento de Camões, 1880, cuja iniciativa no Brasil coube ao Gabinete Português de Leitura – o acontecimento teve intensa participação popular no Rio de Janeiro e é nesse contexto que Machado apresentaria a peça Tu, só tu puro amor, escrita especialmente para a ocasião.

Mas, sobretudo e sobremodo, talvez a mais decisiva convivência de Machado com os literatos portugueses se tenha dado nos jornais oitocentistas em que colaborava, com distintos graus de regularidade. Assim, destaquemos como pistas de leitura:

* A Marmota Fluminense: existindo sob essa denominação de 1855 a 1857, quando passou a ser chamada A Marmota, este periódico publicou transcrições de poetas portugueses, como Folhas caídas, de Garrett, poemas de João de Lemos e Antonio Dinis, entre outros.

* O Correio Mercantil, 1858-59, no qual Machado conheceu Faustino Xavier de Novais, e onde publicou, entre outros textos, o artigo “O jornal e o livro”, marco de um posicionamento dialético-político em Machado, cuja idéia (escreveu ele) “pertenceu ao sr. Reinaldo Carlos [Montoro]” – um artigo que manifesta uma clara adesão aos princípios democratas e republicanos.

* O Parahyba, de Petrópolis, 1858-59: jornal progressista, avançado para o seu tempo, de relevância ímpar na história jornalística, editorial e literária brasileiras – até hoje não devidamente estudado, criado por Zaluar, editorialista e seu redator-chefe, que contou com a colaboração de Carlos Montoro, Ramos Paz e Machado.

* Diário do Rio de Janeiro, 1861-62: nele escreveram também Ramos Paz e Sena Pereira.

* O Futuro, 1862-63, criado e dirigido por Faustino Xavier de Novais, contando com a participação de Zaluar, Braga, Sena Pereira, Carlos Montoro, Cybrão, Ramos Paz, Manuel de Melo: foi o primeiro – pode-se dizer também o principal, se não verdadeiramente o único – jornal luso-brasileiro, raiz de resto explícita no texto de editorial de seu primeiro número, saído a 15.09.1862, e que inclusive abrigou várias crônicas machadianas de teor político (além de outros timbres).

A rigor, este período de cerca de oito anos, entre meados da década de 1850 e início da de 60, quando Machado de Assis viveu “cercado” de portugueses, constitui-se de suma relevância – cultural, literária, mas também e muito especialmente filosófica – na construção do pensamento de Machado de Assis, uma personalidade e um pensamento insubmisso a doutrinas e dogmas. Machado chegava aos 24 anos (1863), lido, respeitado, apreciado por uma obra vasta, à época já composta de crônicas, poemas, contos, peças teatrais, crítica teatral e literária, e indelevelmente marcado pela cultura portuguesa.

Às perenes leituras nas bibliotecas e acervos bibliográficos e à estreita convivência com literatos lusos estabelecidos no Rio de Janeiro, devem obviamente acoplar-se as profusas citações e alusões a escritores portugueses em toda a obra machadiana: elas identificam os diferentes graus e teores de influência de textos lusos na genealogia literária de Machado e concomitantemente apontam para vetores na constituição dos hábitos de leitura, gostos e perfis de leitores da sua época.

Neste particular, quais os autores portugueses que, a par da marcante influência em Machado de Assis, o escritor difundiu junto dos seus leitores?

Desde logo, existe a influência próxima dos portugueses que conhecia no Rio de Janeiro. Por exemplo de Francisco Gonçalves Braga, a quem Machado designou “meu primeiro mestre”. Ou de um português que não era escritor ou literato, Furtado Coelho, que, sendo produtor teatral, pôs em cena muitas peças traduzidas por Machado (Mário de Alencar, aliás, considerando Machado “um dos maiores tradutores brasileiros”, lamentava que ele tivesse interrompido tal atividade literária). Mas também a dos autores canónicos da literatura de Portugal. Hegemônica foi certamente a influência de Luís de Camões: pode-se considerar, no cômputo geral das menções e referências de Machado, que Camões é somente superado por Shakespeare, e que Os Lusíadas são a obra mais citada por Machado depois da Bíblia. Também Garrett e Castilho marcaram intensamente a poética machadiana. Aliás, é mister enfatizar que o “Bosquejo da História da Poesia e Língua Portuguesa”, de Almeida Garrett (1827), é um texto fundamental para a história da literatura no Brasil, pois aponta caminhos da emancipação literária nacional que viriam a constituir-se sob a égide do movimento na década de 1830 liderado por Gonçalves de Magalhães e José de Alencar, em prol de um “nacionalismo literário brasileiro”. É nesse contexto que ele também nos merece ser lido como uma forte inspiração para as reflexões de Machado acerca da literatura brasileira, expressas nos ensaios “O passado, o presente e o futuro da literatura brasileira” (1858), “Instinto de nacionalidade” (1873) e “A nova geração” (1879). A obra Viagens na minha terra, de Almeida Garrett é também, no teor da sátira menipéica-luciânica (e ao lado das obras de Sterne, Diderot e Xavier de Maistre), um dos mais evidentes fatores de inflexão machadiana no início da década de 1880. Ao nome de Garrett, se deverá juntar o de Camilo Castelo Branco, que inspirou Machado em certos recursos narrativos, como as digressões metaliterárias, as interferências do narrador em diálogo com o leitor, o uso da ironia (já foram por muitos apontados elementos da novela Coração, cabeça e estômago, de Camilo, em Memórias póstumas de Brás Cubas). A destacar também as influências significativas de Alexandre Herculano – ao lado de Garrett, considerado por Machado como modelo na prosa – e João de Barros, na constituição de seu conhecimento histórico. A esses nomes devemos ainda juntar os nomes de Cruz e Silva, Nicolau Tolentino, Bocage ou Feliciano de Castilho…

Por fim, uma reflexão a respeito de uma questão que muito me instiga, e que julgo pertinente. Machado – representante proeminente do movimento de “nacionalização literária” brasileira – parece ter sido um dos poucos, senão o único, a valorizar a interação com a literatura portuguesa: não se tem referência, por exemplo, de igual tensão na obra de Gonçalves de Magalhães, José de Alencar ou dos demais românticos empenhados na afirmação de nacionalidade literária e cultural do Brasil.

É certo que muita ambiguidade existiu nos românticos brasileiros em relação ao legado lingüístico e cultural dos portugueses. Mesmo tendo em conta a importância, ou necessidade, de estabelecer, e sedimentar, traços diferenciadores do novo país depois da independência de 1822, o curioso – e contraditório – é que, paralelamente a um processo de rutura, se desenrolou um processo de obediência e preservação dos padrões lingüísticos, sintáticos, lexicais da norma portuguesa, como se a obediência a essa norma fosse uma espécie de atestado probatório de qualificação cultural e de “civilidade” intelectual, que de resto, eles o sabiam, consolidava, e consubstanciava, a própria constituição da identidade intelectual brasileira.

Este artigo emana do livro Machado de Assis e portugueses: influências, intertextualidades, convivências em preparação.

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