Do que recentemente se publicou sobre música em Portugal

Edward Luiz Ayres d’Abreu

[Longe do aparato de parangonas descartáveis, e apesar das dificuldades com que se debatem autores e editoras de circulação marginal, acha-se ainda, aqui e ali, uma iniciativa aventurosa, um esforço audaz, uma missão cumprida com rasgo de génio.]

A árvore

Se, por um lado – como ouvi Rui Vieira Nery dizer um dia, a propósito da surpreendente dimensão do que está ainda por descobrir no nosso património musical –, “Portugal é um paraíso para musicólogos”, por outro, um meio musical profissionalmente frágil e um meio académico constrangido pelas recentes políticas científicas e culturais têm sistematicamente reduzido o saber ao jugo mercantilista. Não fosse lamentável e seria até anedótica a situação: escusando-se a referência às inúmeras caixas repletas de manuscritos por inventariar que encontramos em diversos arquivos, bastaria lembrar que nem para um caso como o de Joly Braga Santos, figura maior da composição europeia do século XX, existe, até hoje, um catálogo de obras…

O panorama bibliográfico está naturalmente condicionado à glorificação mediática da mediocridade, toscamente aguarelada em tons de cinza ou gritada em néones de muito superficial imediatismo. Longe do aparato de parangonas descartáveis, e apesar das dificuldades com que se debatem autores e editoras de circulação marginal, acha-se ainda, aqui e ali, uma iniciativa aventurosa, um esforço audaz, uma missão cumprida com rasgo de génio. Sob pena de não haver espaço para todas as justas menções, enumeram-se apenas algumas das concretizações mais relevantes de 2014 ou que nesse ano mais consequentemente se divulgaram.

Os frutos

* A literatura para piano de autor português mereceu louvável iniciativa de Nancy Lee Harper com Portuguese piano music (The Scarecrow Press, Inc., 2013), um impressionante volume – a que se junta um CD com alguns exemplos áudio – tentando listar todo o repertório para o instrumento desde as primeiras obras compostas para tecla até à nossa contemporaneidade. À parte a profusão de gralhas e falta de rigor metodológico, é um muito útil ponto de partida para instrumentistas e melómanos.

* José Maria Pedrosa Cardoso fez publicar o Passionário polifónico de Guimarães (Sociedade Martins Sarmento / Fundação Cidade de Guimarães, 2013), que reproduz, em fac-simile, o códice SL 11-2-4 da Sociedade Martins Sarmento, juntando-lhe um apurado estudo e uma cuidada transcrição e revisão.

* Sob a coordenação de João Mascarenhas-Mateus e Carlos Vargas, nos 220 anos de história do Teatro Nacional de São Carlos, deu-se à estampa uma importante “reflexão sobre a realidade patrimonial e futuras intervenções neste monumento, considerando a sua autenticidade histórica e as exigências da cenografia contemporânea” (Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2014).

* Leonor Losa publicou Machinas fallantes: a música gravada em Portugal no início do século XX (Tinta da China, 2014), um interessantíssimo trabalho, com belas ilustrações e excelentes conteúdos, que aborda a recepção e desenvolvimento da indústria discográfica a partir de 1878. O livro inclui ainda um CD, produzido sob a direcção técnica de António Tilly, que resulta de um projecto de conservação e digitalização de fonogramas do INET-md (Instituto de Etnomusicologia – Centro de Estudos em Música e Dança, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa).

* Sob a coordenação de Cristina Fernandes e Vanda de Sá, e no âmbito do projecto “Estudos de Música Instrumental (1755-1840)” da Unidade de Investigação em Música e Musicologia da Universidade de Évora, publicou-se Música instrumental no final do antigo regime (Edições Colibri, 2014), um livro que reune artigos das coordenadoras e de Filipe Mesquita Oliveira, Francesco Esposito, João Vaz, Maria João Albuquerque, Rui Vieira Nery e Vasco Negreiros.

* Duarte Gonçalves da Rosa lançou Tomás Borba na História da Música Portuguesa do século XX: modernidade e tolerância (Instituto Açoriano de Cultura / MPMP, Movimento Patrimonial pela Música Portuguesa, 2014), homenageando finalmente uma das personalidades mais influentes (e actualmente mais esquecidas) da pedagogia musical portuguesa.

* Vimos ser acrescentado mais um volume à colecção “Compositores Portugueses Contemporâneos”, desta vez em homenagem a Álvaro Salazar (Atelier de Composição, 2014), com contributos de António Pinho Vargas, Virgílio Melo, João Pedro Oliveira, Mário Vieira de Carvalho, Maria João Reynaud e ainda com uma entrevista ao compositor por Pedro Junqueira Maia.

* Mário Vieira de Carvalho lançou Escutar a literatura (Edições Colibri, 2014), um livro sobre “a cultura da escuta na literatura portuguesa” com pertinentes reflexões a partir de diversas problemáticas e de obras de Almeida Garrett, Eça de Queiroz, Teolinda Gersão e Lídia Jorge.

* Depois de um interregno de vários anos, voltou a ser publicada a Revista Portuguesa de Musicologia, desta feita em formato exclusivamente digital (cf. www.rpm-ns.pt). O número de 2014 inclui um dossiê temático em torno das Cantigas de Santa Maria.

* Publicada em dois formatos (impresso e em linha – cf. www.glosas.mpmp.pt), a revista Glosas, dedicada à música de tradição erudita ocidental dos países de língua portuguesa, e dirigida tanto ao público leigo como ao profissional, mantém a sua actividade regular. Os números de 2014 (n.º 10, Janeiro; n.º 11, Setembro) homenagearam Cândido Lima e, no centenário do seu nascimento, César Guerra-Peixe, destacando-se ainda a publicação, dentre outros artigos, de entrevistas aos maestros Álvaro Cassuto e Massimo Mazzeo e ainda de um longo texto de Sérgio Azevedo (“Os anos de El mi paraiso”) com memórias em torno de Fernando Lopes-Graça, no ano em que se assinalaram os 20 anos da sua morte.

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