O CAMINHO ENQUANTO ARTE

Jorge Palinhos

[Caminhar é uma atividade física em que o corpo humano, sustentado apenas pelos membros inferiores, se move no espaço concreto, fazendo avançar à vez cada pé. É um gesto de tal forma quotidiano que raramente nos lembramos de que houve uma altura em que tivemos de o aprender, com grande dificuldade e alguma audácia. É, possivelmente, o primeiro e o mais comum perigo que todos os seres humanos enfrentam no início da sua vida, e também aquele que mais rapidamente se esquece à medida que os passos se tornam centrais na nossa existência.]

Primeiro do que tudo, a caminhada foi um ferramenta desenvolvida pelos primeiros hominídeos para se deslocarem na savana enquanto vigiavam as suas redondezas. E continua a sê-lo, hoje, através de muitas formas diferentes de caminhada. É fácil identificar o transeunte, que caminha do ponto A para o ponto B, quase sempre apressado e inquieto com o tempo e as preocupações para ter consciência de si ou do espaço que o rodeia. Ou identificar o turista, que trata o espaço à sua volta como um produto de consumo, buscando nele revelações ou descobertas, e se trata a si próprio como o protagonista de um evento ficcional ou de uma aventura, no dizer de Georg Simmel (2004: 179). Ou mesmo identificar o flâneur, uma invenção moderna, em que alguém caminha para se desligar da rotina, das relações e dos problemas, para se religar a si próprio e à sua identidade individual, e que por isso passeia pela cidade: um espaço que lhe é familiar sem ser intrusivo, para que o seu fluxo de pensamento possa oscilar entre a contemplação do território e a contemplação do seu próprio eu. E temos, claro, o peregrino, que faz uma caminhada de longo curso que tem um fim, ao contrário do flâneur, mas não tem um tempo limitado, ao contrário do transeunte, e cujo percurso para o espaço desejado é mais importante do que o percurso no próprio espaço, ao contrário do turista. Ou seja, a peregrinação é uma caminhada determinada pelo esforço e pela renúncia ao familiar, ao útil e ao aprazível. É por isso que a caminhada, sob a forma de peregrinação, se tornou essencial a tantas religiões do mundo, como o cristianismo, o islamismo ou o budismo, como forma de purificação e de renúncia do mundano.

Todavia, mesmo quando sagrada, a caminhada não é uma atividade inocente. Caminhar muda o mundo, tal como no passado mudou o corpo humano. Os passos rasgam trilhos ou carreiros, constroem-se calçadas e veredas para os caminhantes, pousadas para os peregrinos, postos de informação para os turistas, semáforos para os transeuntes. As solas dos sapatos chiam e ecoam ao pisarem a pedra, o alcatrão, a areia ou a lama. Um caminhante é um corpo em movimento que deixa uma marca no mundo e é afetado por esse mesmo mundo.

É por tudo isto que a caminhada, além de um gesto físico, é também um gesto psicológico e emocional. Enquanto caminhamos é necessário equilibrar e controlar a respiração, dosear o dispêndio de energia, vigiar inconscientemente o movimento do corpo, e tudo isso conduz a um fluxo e a um ritmo determinados dos pensamentos, num misto de contemplação interior e exterior. É também por isso que a caminhada deixa uma marca no pensamento. Segundo Rebecca Solnit, o ritmo da passada gera um ritmo do próprio pensamento e a percurso pela paisagem ecoa o percurso pelos pensamentos; caminhar é também pensar, mas pensar de um certo modo, imaginar a partir da planta dos pés.

Não é, por isso, surpreendente que encontremos tantas referências a caminhadas entre artistas e escritores. Platão fundou a escola peripatética de filosofia, em que o mestre e os discípulos pensavam em conjunto caminhando. Rousseau comentou que só conseguia meditar enquanto caminhava. David Remnick (2000: 76) nota que o escritor Philip Roth, além de escrever de pé, tal como fazia Eça de Queirós, faz longas caminhadas para tentar resolver na sua cabeça problemas dos livros em que está a trabalhar. E muitos outros escritores, como Charles Dickens, Georges Simenon, Kant, entre outros, para quem a caminhada era uma forma de trabalho literário, sendo a passada o método pelo qual as personagens, situações, frases e pormenores se encadeavam na sua cabeça.

Sendo a caminhada um gesto próprio da interioridade e da criatividade, é mais raro que tenha sido usado na receção e usufruto de uma obra artística. Ao longo das eras, quase sempre a posição do leitor ou do espectador foi a de estar sentado ou parado, de pé. Desde o teatro antigo em que a audiência estava sentada em anfiteatro, ou o teatro medieval, em que o público estava de pé em redor do palco ou do cortejo, ou mesmo o teatro romântico, em que os espectadores estavam sentados ou de pé nas salas à italiana, o prazer estético sempre foi sempre usufruído na imobilidade, possivelmente porque o gesto de estar parado conduz a uma maior recetividade aos estímulos exteriores, enquanto o movimento estimula o pensamento e a ação, promovendo a individualidade e a subjetividade.

Por tal razão, um dos mais curiosos fenómenos artísticos em anos recentes tem sido a walking art, desde os audiowalks, até às visitas encenadas, os labirintos sensoriais, os itinerários artísticos, projetos artísticos sobre a mobilidade em espaços urbanos, etc. Esta busca é descendente direta do conceito de experiência, dos surrealistas, onde se procura que o espectador deixe de ser um recetor passivo, mas alguém que vive de forma comprometida o usufruto estético.

Para o fazer, quase sempre os artistas que trabalham nos domínios da walking art procuram afetar o espectador de forma indireta, isto é, através do percurso, do ritmo, da paisagem, dos estímulos sonoros ou visuais. Quer usando headphones com paisagens sonoras ou musicais, quer escolhendo determinados percursos ou transformando esses percursos através de narrativas ou textos, ou mesmo transformando os espaços com elementos cenográficos ou visuais. O propósito é que estes elementos transformem a experiência caminhante do espectador, levando-o a determinados pensamentos e emoções que de outra forma não teria.

Em comum, estas obras procuram explorar novas possibilidades de comunicação artística, colocando o espectador numa posição diferente, que estimula a sua autonomia e a sua individualidade. Esta diferente posição exige, também, novas formas de construção da obra artística, que tenham em conta as diferenças psicológicas e mesmo físicas que a caminhada exerce no espectador. Deste modo, a caminhada torna-se um motivador da inovação artística, mas também se torna motor para explorar a condição atual do ser humano, de eterno nómada, em constante movimento espacial, mas também emocional e social.

 

Bibliografia

REMNICK, David (2000), “Into the clear” in The New Yorker, 8 de maio.

SIMMEL, Georg (2004), Fidelidade e gratidão e Outros textos, Lisboa, Relógio d’água.

SOLNIT, Rebecca (2000), Wanderlust: a history of walking, New York, Penguin.

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