SOBRE UM ANTIGO LIVRO DE CHARLES DU BOS

Arnaldo de Pinho

[A extinta Livraria Morais, ligada à revista O Tempo e o Modo, publicou em 1961 um texto intitulado O que é a Literatura. Trata-se dum conjunto de quatro conferências, pronunciadas pelo autor na Universidade americana de Notre Dame, em 1938.]

Os títulos das conferências são, de per si, elucidativos: “A literatura e a alma”, “A literatura e a luz”, “A literatura e a beleza” e “A literatura e o verbo”. Completa o livro um texto tirado do diário do escritor francês.

Com estes quatro temas percorre o autor alguns poetas ingleses – de Keats a Coleridge, de Wordswoth a Browning – para, sempre colado à palavra poética, nos fornecer o encontro com “a triste e sossegada música da humanidade” (Wordsworth).

“Que ledes, meu Senhor?” Pergunta Polonius no célebre Hamlet de Shakespeare; e este responde: “Palavras, palavras, sempre e só palavras”. As palavras belas constituem, na verdade, a luz do próprio pensamento.

A relação entre literatura e beleza é pois, por isso, essencial. Charles du Bos comenta este tema a partir dos célebres versos de Keats “Uma coisa bela é uma alegria para sempre”, para comentar em seguida: “relativamente à coisa bela o que torna o caso de Keats único é que, mais do que qualquer outro homem de génio, ele possui tão abundantemente as duas espécies de imaginação que são a imaginação concreta e a imaginação abstracta que as consegue conciliar e que nele essas duas espécies de imaginação correspondem a duas maneiras de aprender, de efectuar essa apreensão real e que, ela também, apreende em tudo o concreto e o abstracto” (1197).

Na última conferência, analisa Charles du Bos a relação entre a literatura e o Verbo, começando com a frase do Eclesiástico XVIII, 5: “Quando o homem tiver acabado, então estará no começo e, quando cessar, ficará perplexo”.

Depois de tratar todos os outros temas, du Bos trata da incarnação que exercita toda a grande literatura através da carne viva das palavras. Comparando o mistério profano desta incarnação com o mistério sagrado de O Verbo se fez carne, afirma que em toda a grande literatura a emoção tomou carne nas palavras. O que é a literatura, afinal?

Partindo de John Midleton Murray, du Bos refere-se àqueles homens que “exprimiram a verdade de tal mistério de tal forma que essa verdade não pode separar-se das palavras que a exprimiram, não pode transitar para a linguagem corrente e passar de boca em boca independentemente dessa carne viva que é a linguagem viva que lhe deu forma”. Aí, está a grande Literatura.

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