VERGÍLIO FERREIRA: A TRADUÇÃO, A GLÓRIA E OS PISTOLEIROS DA LITERATURA

Jorge Bastos da Silva

[No conspecto das obras de Vergílio Ferreira, Conta-corrente é aquela em que, de mistura com apontamentos de muito diversa índole, mais de espaço se arrolam as preferências do autor enquanto leitor: de Eça sobre Pessoa, de Clarice Lispector sobre Miguel Torga… ]

Em matéria de reflexão sobre o fenómeno tradutivo, não exibe extraordinária opulência a escrita dos autores portugueses do século XX. É possível que venha a fazer-se a prova de que estavam mais atentos ao problema os seus compatrícios de séculos anteriores, como Cândido Lusitano, António Feliciano de Castilho e Camilo Castelo Branco; e é de igual modo plausível que esse alheamento, a confirmar-se, se prenda com um apartar das águas entre a elite cultural mais genuinamente criadora e aqueloutra que se profissionalizou nos quadros da investigação e da docência universitárias. O desejável incremento dos estudos acerca da tradução e do seu estatuto em perspectiva histórica e sistémica encarregar-se-á de apurar a pertinência dessas conjecturas. Entretanto, no ano do centenário vergiliano, não deixa de ser oportuno evocar algumas linhas de Conta-corrente dedicadas ao lugar da tradução, não exactamente nas matrizes da escrita literária mas em todo o caso no sistema da literatura. Num apontamento inacabado, com data de 15 de Agosto de 1989, Vergílio Ferreira averba o seguinte desabafo:

A tradução. É a distinção máxima que o escritor português deseja para si. Eu não me agito muito para o conseguir. Mas também o desejo. Esse sonho enraíza na nossa modéstia e o [= no?] desejo furioso de que “lá fora” nos reconheçam existentes. Estamos longe, somos pequenos e invisíveis, mesmo a curta distância. Vivemos assim no pavor de que nos não divisem. Não temos confiança em nós próprios e necessitamos por isso nos reconheçam para a termos. Dificilmente arriscamos um juízo favorável sobre nós, se lá fora o não confirmarem. E paralelamente, se um escritor imbecil é muito traduzido, necessariamente o alçamos à entronização. Porque se lá fora somos traduzidos, é porque somos magníficos. Pois como ser magnífico, se lá fora o não somos? Assenta este juízo no pressuposto de que lá fora não há imbecis. Lembro-me do Namora que teve a percepção exacta ou foi mesmo o primeiro a tê-la de que a tradução de um nosso livro estabelece reflexivamente a sua boa reputação entre nós. Curiosamente no passado, mesmo no século XIX, a tradução não me parece ter sido motivo de grande glória. Eça foi bastante traduzido e não me lembro de isso ser celebrado. […] Mas nunca se pôs o problema de que uma larga tradução pudesse ser um sinal de mediocridade. Paul de Koch, Octave Feuillet, George [sic] Onhet, mesmo Eugène Sue e mais recentemente Blasco Ibañez [sic], mesmo Stephan [sic] Zweig e Sommerset [sic] Maugham foram traduzidíssimos. Do Paul de Koch Eça dizia em carta a Ramalho que se sentia tão estúpido nesse dia, que estava a lê-lo. Aqui há tempos vi uma lista de autores de maiores tiragens em França e o único autor cotado aí incluído era Saint-Exupéry. O resto eram escribas desconhecidos.

O tom de enfado combina-se indisfarçadamente com a mordacidade. Vergílio Ferreira não se debruça sobre o que de mecânico ou de criativo possa ser compreendido na tarefa ou na arte de traduzir. Não se ocupa do papel que ler traduções ou fazê-las possa desempenhar na gestação de escritas próprias – na criação de um mundo original, como ele diria. Reflecte somente na glória, merecida ou de empréstimo, resultante de alguém (uma força obscura e arbitrária, que permanece anónima, aludida mediante formulações impessoais) ter decidido traduzir-nos. É a muito ambicionada entronização, segundo a voz corrente de um meio cultural provinciano. O discurso sobre a tradução é aqui um discurso sobre a identidade dos que se sentem pobres e subalternos, não sobre a alteridade que conseguem oferecer ao enriquecimento dos outros. O Outro – e em especial o Outro indefinido que escolhe e traduz, que traduzindo escolhe – é, lá do alto e a partir de fora, um operador da hierarquia literária interna – nossa –, sem que se vislumbre alteração naquele horizonte cultural olímpico que é maior e que é dele. O que se passa “lá fora”, quanto para o “lá fora” possa valer o que “cá dentro” se pensa e escreve, pouco ou nada interessa ao sarcasmo vergiliano. Patentemente, não é isso que o “agita”.

Preenchendo-se de opiniões e de anedotário, o apontamento diarístico é destituído de valor analítico. Não é, todavia, desprovido de valor crítico, já por denotar a impossibilidade de certos “escribas” integrarem um cânone pessoal (e não deverá a escrita de Ferreira mesmo nada a um Stefan Zweig ou a um Somerset Maugham? e não compartilhará mesmo nenhum território com eles?), já por colocar o problema da literatura de, ou para as, massas. É pouco seguro que nunca antes se tenha aventado “que uma larga tradução pudesse ser um sinal de mediocridade”. Afinal, o sucesso por via da tradução é uma face desse poliedro que, desde Horácio, tem levado inúmeros autores a preocupar-se com as dinâmicas de produção e consumo que, quando não estimulam à renúncia à qualidade, no mínimo prescindem desta. Se há aqui “desejo furioso”, é o de nunca abdicar de um sentido de critério, que o escritor que se reclama de pergaminhos – criador, preceptista, crítico – tem a mais estrénua renitência em deixar cair, porquanto sem ele fica ferida a sua própria dignidade.

E no entanto, também o Doutor Fausto fez um pacto com o diabo – é certo que desiludido de ter estudado Filosofia, Direito e Medicina, e desgraçadamente também Teologia, com vivo afinco, e de se encontrar, no fim de tudo, tão ignorante como no início; mas será esse estado de espírito muito diferente da exaustão que se detecta em tantos pronunciamentos do pensador existencialista português, exarados na letra dos romances, da ensaística ou do diário? Pois vemos que também Ferreira, à semelhança de muitos de quem desdenha, exulta com a perspectiva de uma edição russa de obras suas, numa colecção intitulada “Mestres da Prosa Contemporânea” (“mordei-vos, ó vilões”), não resistindo, assim, também ele, a esmolar um afago que vem de “lá fora”. E cai precisamente – descompondo-se um tanto – no vício provinciano de que acusava certos colegas de ofício:

Que outros mestres lá estarão? O Namora universal? A genial Agustina? O asqueroso Castrim? Não faço ideia. Agora do que faço ideia é que a minha prosa, tão pouco cotada entre os meus conterrâneos, subiu a estrela para os bons soviéticos. Rosnai, vis rafeiros. Eles são mais inteligentes e de melhor gosto do que vós. (Conta-corrente, 3 de Maio de 1983)

A exaltação tem o seu quanto de tristemente risível, à luz não apenas do que Ferreira viria a observar acerca do “pressuposto de que lá fora não há imbecis” mas também das suas repetidas críticas à União Soviética e da muitas vezes declarada descrença no comunismo.

No conspecto das obras de Vergílio Ferreira, Conta-corrente é aquela em que, de mistura com apontamentos de muito diversa índole, mais de espaço se arrolam as preferências do autor enquanto leitor: de Eça sobre Pessoa, de Clarice Lispector sobre Miguel Torga… Nalguns casos, o registo faz-se com um desassombro que arrisca melindrar a susceptibilidade dos que se vêem admitidos à partilha ou à confissão, e não espantaria que despeitasse também alguns dos visados. Mas tampouco admira que opiniões calibradas pela altivez ou pelo ressentimento fossem encaminhadas para as páginas do diário, onde cabem pensamentos agrestes como que ditos em voz alta, palavras privadas que acabam proferidas em público – ou quiçá palavras públicas, que sempre quiseram ser públicas, ousadas sob a presunção de uma suposta e fingida privacidade. Seja como for, Conta-corrente surge como um lugar em que, num estilo por vezes atrabiliário e escusando-se a pedir licença ou penitência, o autor vaza alguns dos seus desencantos com o mundo dos coevos e da literatura. É o caso de um testemunho datado de 1 de Dezembro de 1983, que, talvez com propriedade, se interrompe no instante em que a consideração impaciente de uma actualidade mesquinha se destila na contemplação de qualquer coisa que a transcende, ou que em tempos a transcendia – qualquer coisa que obriga a calar, ou porque existisse, ou porque tenha deixado de existir, mas que de todo o modo não impede que fique entendido o que importa entender:

Quem procura a glória não a merece, quem a merece não a procura. Absolutamente. Mas porque é que a glória há-de ser para os cow-boys da literatura, os plagiadores, os broncos, os estrategos, os medíocres? E porque é que estes, não contentes com o que lhes não pertence, humilham, vexam, insultam os que modestos se recolhem ao seu apagamento? Porque é que nestas contas o benefício há-de ir para os imbecis? A praça literária está cheia deles e deles é que é o triunfo, a farófia, a pimponice, os jornais, a TV, as edições, as contas no banco. Porque teimar então em que a glória não deve ser procurada, a não ser pelos homúnculos ordinários? Compreendo que se não procure porque dá muito trabalho em porreirismo e bródio e uísque e abjecção. Mas não por ser glória que é das normas ser póstuma, depois de se ter gramado a estucha de ver a mediocralhada a dar à anca e a insultar os que vão seguindo a sua vida humilde. Quando havia a eternidade, está bem que se adiasse o acerto da justiça. Mas agora que ela encerrou para obras (Interrompido).

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