CONVERSA EM ZIG ZAG: DA CURADORIA DE AMADEO À CURADORIA DE UM “ESPAÇO CRÍTICO”

Maria do Mar Fazenda

A curadoria de uma exposição pelo próprio artista, na época de Amadeo, é uma circunstância absolutamente inovadora. Apesar de Amadeo na altura não ter sido referido como “curador”, até porque esta figura ainda não tinha sido profissionalizada, hoje, com o reconhecimento desse trabalho realizado por Amadeo nas mostras de 1916, podemos afirmar que foi curador do seu próprio trabalho – o que é aliás, uma das teses veiculada pela exposição «Amadeo de Souza-Cardoso. Lisboa–Porto. 2016–1916». Nas duas mostras em que esta exposição se foca, Amadeo, para além de ter produzido as obras, selecionou-as e transportou-as, escolheu e alugou os espaços onde viriam a ser apresentadas, desenhou a sequência e a sua disposição no espaço expositivo, escreveu o comunicado de imprensa, editou o catálogo, e podemos ainda fantasiar sobre as visitas orientadas à exposição que terá acompanhado, e especular em torno de um ciclo de conferências organizado no âmbito da exposição, tal como o concebido pelas curadoras Raquel Henriques da Silva e Marta Soares para o contexto da sua exposição.

O assunto e o relevo da figura do Curador no contexto artístico contemporâneo, tem especial preponderância a partir da década de 60, e mesmo a nomeação de Artista-Curador, designação que surge, um pouco mais tarde, do entroncamento da curadoria com a prática artística, é uma abordagem amplamente desenvolvida noutros lugares. No entanto não nos parece ser a mais fértil na aproximação que nos propomos trazer. Mais do que nos posicionarmos numa eventual historiografia de exposições, interessa-nos sondar o “processo curatorial artístico” – que estamos em crer extravasa muito o accrochage de obras no espaço expositivo – identificável não apenas em momentos que eventualmente emergem à tona no espaço público, nomeadamente, em exposições. Pensamos, por exemplo, em projetos desenvolvidos no ambiente do atelier. Sem nos afastarmos demasiado de Amadeo e das exposições que comissariou, detenhamo-nos, por um pouco, em Brancusi, com quem Amadeo conviveu em Paris, e na “curadoria” do seu trabalho. Ao longo de toda a sua vida, o escultor húngaro desenhou ao detalhe a inter-relação entre a produção de obras, a sua ocupação no espaço do atelier e a presença de um outro corpo – o do observador e das relações entre as obras no espaço. É a partir deste triângulo formado por obra de arte/espaço/observador que o curador trabalha. O mesmo que Brancusi exaustivamente trabalhou, reconfigurou, pensou – um jogo de forças que se quer coincidente com o da descrição, citada no catálogo, da afirmação do curador Paulo Pires do Vale: “uma exposição é a configuração de um espaço crítico. É reflexão, pensamento no espaço” (Silva & Soares, 2016: 41).

Fig. 1 Título de pintura retirado do catálogo da exposição de Amadeo de Souza-Cardoso apresentada no Salão de Festas do Jardim de Passos Manuel, no Porto, em 1916.

No contexto do ciclo de conferências paralelo à exposição «Amadeo de Souza-Cardoso. Lisboa–Porto. 2016–1916», e no seu segundo momento apresentado em Lisboa, no Museu Nacional de Arte Contemporânea/Museu do Chiado, propuseram-me a organização de uma conversa com artistas contemporâneos. Foi-me dada carta branca quanto ao fio condutor que entreunisse as práticas a um determinado tema. Na sua primeira formulação – organizar/pensar uma conversa, com jovens pintores, que tivessem afinidade com o trabalho de Amadeo – devo confessar que a minha primeira reação foi a de que este repto deveria ser respondido por alguém da História da Arte. Entendi esta minha primeira reação como uma espécie de sintoma da querela ou da tensão que se diz existir entre os curadores e os historiadores de arte, com os seus respetivos discursos. Aparentemente, estes estão muitas vezes de costas voltadas entre si porque se por um lado os curadores acham que aos historiadores de arte só lhes interessa a linearidade histórica, a sequencialidade de escolas ou movimentos e a identificação das ruturas com as tradições, etc., por sua vez, dizem os historiadores de arte que aos curadores só lhes interessa o Zeitgeist, conhecer o próximo artista a emergir, saber da próxima Bienal num local remoto, etc. Apesar de não me rever nesta fantasia do curador nem crer que o discurso da história da arte tenha de estar circunscrito a uma qualquer grelha cronológica, por breves momentos, quase caía nesta armadilha. Na minha prática curatorial, procuro trabalhar com o que é possível produzir, precisamente a partir desse “avizinhamento” de tempos díspares e aproximação de práticas distantes. Finalmente, o que organizou a conversa foi um duplo gesto: “marcar” e “desfazer”, em simultâneo, o intervalo de cem anos que nos separa das exposições de Amadeo.

A exposição “evocava” e “interpretava” as comissariadas por Amadeo – retraçando o percurso das exposições apresentadas, primeiro no Porto, no Passos Manuel, e depois em Lisboa, na Liga Naval, ambas no final de 1916. A mostra abria com uma série de perguntas dirigidas aos visitantes. Uma destas interpelações, “Qual o papel de Amadeo enquanto “comissário” de si próprio?”, norteou a conversa em que participaram os artistas Daniel Melim, Dealmeida Esilva, Isabel Simões e Mariana Gomes, com idades próximas da de Amadeo em 1916. Num diálogo ziguezagueante entre tempos, lugares e a pintura, partindo de curadorias da sua própria autoria (como as de Amadeo), foram apresentados projetos que seguiam protocolos por cada um engendrados, e.g., determinadas práticas de atelier ou deslocação do espaço de produção; escrita e montagem do pensamento criativo; avizinhamento de genealogias e mapeamento de referências. Alguns destes momentos, resgatados da prática destes quatro artistas, foram expostos numa conversa, ela própria, também entendida como uma forma de curadoria.

Tendo Amadeo sido o curador da sua própria obra nestas duas mostras, ou seja, tendo acumulado, ao seu papel de artista, muitas das tarefas que hoje atribuímos ao trabalho do curador, pareceu-nos interessante, numa primeira fase, trazer para esta conversa, era a aproximação de Amadeo à figura do Artista-Curador e por isso convidar artistas-curadores. Mas a ideia foi rapidamente abandonada. Pareceu-nos forçada, considerando a pontualidade destas mostras. Mas cremos que, não fosse a morte precoce de Amadeo, seria interessante ponderar hoje o seu expoente projeto curatorial, que ficou por realizar: a apresentação de uma exposição num transatlântico; particularmente maravilhosa a conceção de uma exposição que integra nela própria a ideia de Viagem, já que estava previsto a exposição ser reconfigurada no seu regresso… O fio vermelho do artista-curador também não avançou quando numa visita orientada à exposição se tornou claro aquilo que me suscita mais curiosidade nesta curadoria por um artista do seu próprio trabalho. Quando na sala se conseguiu recuperar a sequência das obras desenhada originalmente por Amadeo para as exposições; era possível entrever a articulação secreta entre pinturas, decidida pelo artista e fazê-la corresponder a um espaço crítico, a um pensamento, a uma reflexão sobre o seu próprio trabalho, como sugeria Paulo Pires do Vale.

A par da curadoria feita pelos próprios artistas – entendida enquanto um “espaço crítico” onde o seu trabalho é pensado criticamente – o “marcar” e o “desfazer” do hiato das exposições de Amadeo consubstanciou-se em dois principais eixos. Por um lado, o que nos distancia: o que é ser pintor em Portugal cem anos depois de Amadeo? E, por outro lado, o que nos aproxima, deste espaço crítico produzido pelos artistas, de uma espécie de curadoria secreta concebida pelos próprios artistas. Em traços largos, assim se desenhou o meu convite a estes quatro artistas, ao que cada um respondeu com a apresentação de um determinado projeto. A Mariana Gomes, com uma prática de atelier muito vincada, com regras precisas, apresentou uma série de pinturas realizadas apenas com tintas preta e branca. Em contrapartida, Daniel Melim, apresentou um projeto em que deslocou o seu atelier, o espaço de produção para a rua. Isabel Simões selecionou e leu fragmentos de texto que escreve em momentos de pausa, de distanciamento da prática, para uma reflexão crítica sobre o processo de trabalho. Finalmente, Dealmeida Esilva apresentou a preparação e a produção de trabalho durante a residência no espaço Bregas, um projeto de João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira, em Lisboa.

Bibliografia

Silva, R. H. & Soares, M. (Org.). (2016). Amadeo Souza Cardoso, 2016-1916 Porto-Lisboa. Porto: Blue Book.

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