MANHUFE

Isabel Rebello de Andrade

Finalmente, o ritmo da minha pulsação abranda. O trepidar da terra batida faz oscilar o meu olhar por entre as árvores mais ou menos densas que desenham manchas de verdes vivos. Consigo ver o vale que a partir daqui se precipita e os dorsos das montanhas a ondular ao fundo. Perco-me na imensidão da paisagem de terra e céu fundidos. Volto a concentrar-me na estrada, guiada por muros de granito por entre os quais espreitam as videiras carregadas de uvas negras. Continuo a subir e o coração aperta. Estou a chegar a casa. Já quase não me lembrava deste ar puro que me invade o peito. Por entre as folhas rendilhadas vejo a grande fachada, geometricamente recortada e que se impõe sobre o terreiro que nos recebe. O vento traz-me uma mistura de cheiros e memórias e o fumo doce que sai da torre da cozinha conduz-me ao topo da escada. Entro e sinto o calor da lareira que me aquece a alma.

Deparo-me com um alinhamento perfeito de malgas de marmelada, estiradas ao sol, na beira da janela. Pelo teto alto e enegrecido desvanecem os vapores que se fundem em diferentes aromas e cores, despertando um apetite ansioso.

Consigo ouvir a água da torneira a bater na banca de pedra e imagino aquele enorme alguidar com o cabrito untado a marinar. Vislumbro a mesa fria de lousa onde se dispõem tábuas de madeira de diferentes tamanhos com pão e legumes cortados, compondo um conjunto de pedaços vivos e coloridos que combinam com a loiça de barro pintado disposta profusamente nas prateleiras. No armário vejo a balança e os pesos acobreados, juntamente com as garrafas de vinho verde tinto que deixam adivinhar a sua espuma cor-de-rosa. Avanço a passos largos sobre o soalho ruidoso e baço, focando aos poucos a imagem do espaço, timidamente iluminado. Atravesso o arco de pedra e sinto a atmosfera negra de fumo. Contemplo finalmente a lareira onde ardem pequenos troncos amparados pelas duas panelas de ferro preto com três pés. Sento-me no banco de madeira e as faúlhas envolvem-me na sua dança. O granito escurecido é iluminado pelas chamas douradas e o ar quente conforta-me.

De repente, parece que ouço o eco de vozes e gargalhadas, dos serões e conversas sem fim que ali vão ficando gravadas.

Espólio Amadeo de Souza Cardoso I FCG-Biblioteca de Arte e Arquivos — ASC 02/36.

Sinto a brisa fresca que vem da janela quadrangular sobre o laranjal e o monte, por onde entra um raio de sol afirmativo. Aproximo-me e sinto a calma da paisagem. Aqui a cozinha ganha fôlego.

Entro na sala de jantar e vejo a enorme mesa onde todos cabemos. Os objetos parecem querer falar comigo, contar-me tudo o que têm visto enquanto aqui não estou. Subo pé ante pé até ao meu quarto, quebrando o silêncio e revivendo todos os detalhes, cores, padrões e texturas que desenham cada recanto. Abro a porta do quarto e os tons pastel do papel de parede convidam-me a ficar. Abrigo-me na penumbra recordando as noites de lua cheia, as noites de tempestade, os lobos a uivar, as madrugadas frias e os galos a cantar.

A minha janela enquadra um pedaço de torre e as montanhas, e suga-me para a paisagem, onde verdadeiramente pertenço.

Desço apressadamente até ao terreiro da capela e deparo-me com a grande árvore que me abraça com a sua sombra. Debruço-me sobre o muro e sinto-me numa torre de controlo.

Aqui domino toda a paisagem.

Vagueio por entre os jardins e quintais que se vão precipitando em socalcos. Como é bom andar entre estas árvores, sentir a aspereza dos muros, o cheiro da terra molhada e das flores que se expandem pelo tanque e o sabor da água fresca que brota a cada canto.

Percorro o Lugar de Manhufe. E a Casa acompanha-me, com a sua volumetria encastelada no céu. A paisagem que me envolve é uma teia de formas e cores que se entranha na minha memória e se esvai pela minha mão. Apoderou-se do meu imaginário e da minha identidade.

Regresso à atmosfera parda, de sol anémico, acelero o ritmo da minha pulsação e respiro o Mundo. Manhufe permanece vivamente em mim.

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