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AMA DEO: UM TESTEMUNHO DE ANTÓNIO CARDOSO

Maria Luísa Malato

O tempo tem alma de caricaturista. Vai esculpindo no nosso corpo o que temos amplificado. Com o tempo, o nariz ou as orelhas grandes tornam-se desproporcionados, o queixo afilado afina, ou os olhos encovam. Tornamo-nos o nosso mapa físico: ele dá forma às montanhas construídas pelos sorrisos diários, e escava os vales profundos das vezes em que chorámos. O tempo sulca com rugas os caminhos para outros sorrisos e outras lágrimas: o corpo já sabe onde dobrar. Traça um roteiro para nos lermos. Linhas secas, se sempre fomos avaros. Linhas fluentes, se em nós houve generosidade. O gesto que repetimos ao longo dos anos foi ensinando aos músculos o ritmo da música que dançámos. A gravidade é o peso do dedo que nos viu barro… Continue reading AMA DEO: UM TESTEMUNHO DE ANTÓNIO CARDOSO

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MANHUFE

Isabel Rebello de Andrade

Finalmente, o ritmo da minha pulsação abranda. O trepidar da terra batida faz oscilar o meu olhar por entre as árvores mais ou menos densas que desenham manchas de verdes vivos. Consigo ver o vale que a partir daqui se precipita e os dorsos das montanhas a ondular ao fundo. Perco-me na imensidão da paisagem de terra e céu fundidos. Volto a concentrar-me na estrada, guiada por muros de granito por entre os quais espreitam as videiras carregadas de uvas negras. Continuo a subir e o coração aperta. Estou a chegar a casa. Já quase não me lembrava deste ar puro que me invade o peito. Por entre as folhas rendilhadas vejo a grande fachada, geometricamente recortada e que se impõe sobre o terreiro que nos recebe. O vento traz-me uma mistura de cheiros e memórias e o fumo doce que sai da torre da cozinha conduz-me ao topo da escada. Entro e sinto o calor da lareira que me aquece a alma. Continue reading MANHUFE

ISABEL REBELLO DE ANDRADE

ISABEL REBELLO DE ANDRADE completou em 2011 o mestrado em Arquitectura pela Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto. Em 2015, publicou «A Casa Sonhada – Memórias sobrepostas: um pintor e uma arquitecta», livro traduzido para Inglês e Francês que se baseia na sua dissertação de mestrado e aprofunda os conceitos de “lugar, memória e corpo”, tendo como ponto de partida a experiência pessoal de uma casa em que viveu também o pintor Amadeo de Souza-Cardoso. Desde então, Isabel Rebello de Andrade tem vindo a colaborar com várias iniciativas relacionadas com Amadeo de Souza-Cardoso.

ISABEL SARAIVA

ISABEL SARAIVA é natural do Porto, licenciou-se em Artes Plásticas na Escola Superior de Belas Artes do Porto. Desde então, tem exposto individual e coletivamente em Portugal, assim como em várias salas no estrangeiro, nomeadamente em Nova Iorque, Barcelona, Seul, México, Paris, Coulliure, Cuenca, Toulouse, Bruxelas, Palermo, S. Paulo, Suffolk e Corunha. Realizou 29 exposições individuais em Portugal e 4 no estrangeiro. Participou em 27 exposições coletivas no estrangeiro e em 61 exposições coletivas nacionais. A ultima exposição individual no estrangeiro realizou-se na UNESCO-Paris em 2017, a última individual nacional foi na Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Direito 2018. Autora de obras em serigrafia, literárias, edição de postais, de design e premiada em alguns certames de Artes Plásticas no estrangeiro.

MARTA SOARES

MARTA SOARES (IHA / FCSH / NOVA) é licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e mestre em História da Arte pela mesma instituição com uma dissertação sobre Amadeo de Souza-Cardoso. Desde 2014, tem vindo a colaborar com instituições, como a Fundação Millennium bcp, a Fundação Calouste Gulbenkian e o Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía. Foi curadora, com Raquel Henriques da Silva, da exposição “Amadeo de Souza‑Cardoso / Porto Lisboa / 2016 – 1916” patente no Museu Nacional de Soares dos Reis e no Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado. É investigadora do IHA (Instituto de História da Arte da FCSH / NOVA de Lisboa) e prepara uma tese de doutoramento sobre animação e animismo no modernismo.

MARIA DO MAR FAZENDA

MARIA DO MAR FAZENDA (Lisboa, 1977) é curadora independente e investigadora no CASt-IHA / FCSH-NOVA. Em 2002 completa o BA (Hons.) Fine Art na Slade School of Fine Arts, University College of London. Em 2005 realiza a Pós-gradução em Estudos Curatoriais pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa / Fundação Calouste Gulbenkian. Actualmente, frequenta o Doutoramento em Estudos Artísticos – Arte e Mediações na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas / Universidade NOVA de Lisboa.

LUDDOVICA DADDI

LUDDOVICA DADDI (Florença, 1990) é uma estudante italiana da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP), residente em Portugal desde 2012. Movida por um grande interesse pela literatura e cultura portuguesas, desenvolve investigação independente sobre diferentes temas, entre os quais: a poesia de Rui Pires Cabral, o universo intertextual e narrativo de Afonso Cruz e o teatro português do séc. XVIII.

JOSÉ CARLOS PEREIRA

JOSÉ CARLOS PEREIRA é licenciado em Filosofia, e doutorado em Estética pela Universidade de Lisboa. É Professor auxiliar na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, e diretor da Revista Arteoria, pertencente à Secção Francisco de Holanda do CIEBA. Publicou, entre outros títulos, «As Doutrinas Estéticas em Portugal: do Romantismo à Presença» (Hespéria, 2011), e «O Valor da Arte» (Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2016). Como investigador, pertence ao CIEBA (Centro de Investigação e Estudos em Belas-Artes da Universidade de Lisboa), ao CEFI (Centro de Estudos em Filosofia da Universidade Católica Portuguesa) e ao Instituto de Filosofia Luso-Brasileira. É também investigador estrangeiro associado do Projeto Integrado de Pesquisas sobre Processos de Criação, Heranças, Apropriações e Sincretismos em Artes Visuais, do Centro de Artes da Universidade do Estado de Santa Catarina (Brasil).

JOÃO FARIA FERREIRA

JOÃO FARIA FERREIRA está a concluir a licenciatura em Estudos Artísticos, com Menor em História da Arte, na Universidade de Coimbra (UC), o que acumula com a ocupação de genealogista profissional. Tem investigado sobre a Imprensa em Coimbra no século XVIII, a obra de Amadeo de Souza-Cardoso e cinema de terror. Foi co-realizador da curta-metragem “Mesa” (2008) e realizador de “Chá e Biscoitos” (2012).

ISABEL CARVALHO

ISABEL CARVALHO (Porto, 1977) é artista plástica, editora e investigadora. Nos últimos anos, o seu trabalho artístico tem-se desenvolvido em torno das artes visuais, da escrita e da edição, caracterizando-se por uma forte componente de investigação – cruzando abordagens científicas e especulativas como metodologia. Participou em projetos expositivos e editoriais de referência internacional. A par do trabalho artístico dedica-se ao ensino de disciplinas de Desenho e Ilustração.

HELENA DE FREITAS

HELENA DE FREITAS é Historiadora de Arte e Crítica de Arte, autora de livros e ensaios sobre artistas portugueses do século XX, de Cursos de Arte Contemporânea Portuguesa e tem colaborado regularmente em revistas da especialidade. Curadora da Fundação Calouste Gulbenkian desde 1987, onde, a partir de 2001, coordenou o trabalho de investigação para o Catálogo Raisonnée de Amadeo de Souza-Cardoso. Directora do Museu da Pintora Paula Rego em Portugal, Casa das Histórias Paula Rego, Cascais, entre 2010 e 2013. Vive e trabalha em Paris, em destacamento na Delegação em Paris da Fundação Calouste Gulbenkian, onde é curadora desde 2016.

FILOMENA VASCONCELOS

FILOMENA VASCONCELOS é Professora Associada da Faculdade de Letras U. Porto, nas áreas de Teoria e Crítica Literárias e Literatura Inglesa.  É editora da revista digital sobre literatura infantil e-f@bulations (FLUP, Porto, 2007 – ), sendo igualmente colaboradora regular da Routledge – Francis &Taylor (UK, USA) no periódico The European Legacy. Entre outras publicações do foro crítico-literário, tanto nacionais como internacionais (Routledge e Cambridge Scholars), refiram-se os livros de ensaios Imagens de Coerência Precária (Porto, 2004) e Considerações Incertas (Porto 2008). Na tradução, e no âmbito do Projecto  FCT Shakespeare para o século XXI, salientam-se as peças Ricardo II (Porto, 2002), O Conto de Inverno (Porto, 2006) e Romeu e Julieta (Lisboa, 2013). A pintura é um gosto antigo que a acompanha desde sempre, como uma vida paralela, e com as intermitências de uma prática autodidata que nunca se quis sobrepor às exigências do trabalho académico.

EDITORIAL 3

Maria Luísa Malato

Este número da Pontes de Vista é dedicado a Amadeo e a todos os insolentes.

Deve ser efetivamente “insolência” o pecado maior dessa gente que não segue os caminhos habituais. Que mais se lhe há de chamar? “Há gente que chama ao meu estado uma pretensão para sair fora do vulgar – […] Eu sei o que agrada em geral – eu na generalidade desagrado”: isto constata Amadeo.

Insolente Amadeo devia ser. Na sua raiz matricial, o INSOLENTE nega: não é (IN-). A que “não é” ele afeito? O “in-SOLENTE” não é afeito ao que se declina “por costume”: soleo, soles, solere, solitus sum, “eu tenho por costume, tu tens por costume, ter por costume, o que está acostumado a”, “o que segue o costume, os costumes”… Não, eles, os insolentes, são os que não são os do costume. Desconhece-os quem os confunde com os “presumidos”, porque não os domina a ideia de que têm uma identidade fixa. Ou quem os confunde com os “arrogantes”, só porque não rogam favores aos seus semelhantes: rogam antes favores à vida. O nosso insolente assume-se como peregrino, viajante, nómada, CAMINHEIRO… É o que se move pela necessidade de saber ver. Segue a disciplina da EDUCAÇÃO VISUAL, e só a ela lhe obedece: olha para si como se olhasse um estranho, olhando os outros como se se reconhecesse neles. Caminha à feição do terreno, sem culpa do que é ou do que faz. Como se o MAPA lhe indicasse os caminhos por onde ele não foi ainda. Trabalha-se noite fora e dia adentro. Pega no bordão e levanta-se, sem ter por certa a fortuna. Crendo mesmo perdê-la…

E vai.

CAMINHEIRO”, assim se apresentará AMADEO DE SOUZA-CARDOSO a sua mãe, numa carta que lhe envia mal chega a Paris. “Eu tenho mais fases do que a lua”, escreve ele de Manhufe, numa carta à mulher, quando ela ficou em Paris e ele veio a Portugal. Tem de andar entre cá e lá: é esse o seu território.

Em Paris, escreve à irmã: “Aqui respira-se, em Portugal abafa-se”. Em MANHUFE, escreve para um saturado PARIS, que o aborrece igualmente: Maravilha-se em todo o caso com a ruralidade cíclica: “a cada passo parávamos maravilhados com a beleza grandiosa deste país gigante”. De que “país gigante” fala Amadeo? Do Marão, sim, certamente, talvez mais do que de Portugal. E, todavia, podia também assim falar de Paris, da hiperbólica urbanidade da mudança: “Que belo quadro seria se eu conseguisse projetar sobre um écran, ao mesmo tempo, toda a iluminação elétrica, todos os anúncios luminosos, todos os automóveis que passam com uma enorme garrafa de champanhe ou um anúncio do Chat Noir numa grande capital do mundo”! O seu PAÍS é ainda o território do “paisano”, o homem que abrange um espaço reconhecível pelo seu olhar, mas esse olhar pode ser mais ou menos abrangente.

Amadeo nunca renega o ambiente de província em que foi dado à luz, Manhufe, ou Portugal, donde tem de fugir para respirar. Da mesma forma que nunca renega Paris, para onde voltaria não fosse a morte apressada. Contradiz-se? Se CONTRADIÇÃO há é a CONTRADIREÇÃO do “caminheiro”, que nunca para e que não segue ninguém: “Eu, por exemplo, nem a mim mesmo me sigo, nem na fratura, nem na visão artística… tudo o que tenho feito é diferente do precedente e sempre mais perfeito”. Trabalha-se somente. Noite fora, dia adentro. Em muitas telas ao mesmo tempo. Tantas que depois da sua morte serão algumas destruídas, por serem insólitas, insolentes, ilegíveis, estapafúrdias, imorais. E todavia elas registavam uma certa forma de religiosidade, a da ALMA FÍSICA que se aperfeiçoa no MOVIMENTO, aproximando-se do Deus que existe em si e no que o rodeia. Coisas pequenas, porque Deus está em tudo: na mosca sobre o prato, nas montanhas que parecem dorsos de mulher, no salto de um coelho sobre a erva, no voo descompassado de dois gansos, numa cozinha cubista, nas formas geométricas das sombras, num jarro com pincéis, nos grafemas dos anúncios, nas partes de um violino que ganha vida, nas velas dos barcos que iluminam o mar… Amadeo poderia dizer ainda: “Não sabiam que devo ocupar-me das coisas de meu Pai?”… AMA A DEUS.

Umas palavras de Agustina Bessa-Luís sobre Amadeo de Souza-Cardoso resumem talvez esse Amadeo coletivo que nos interessa aqui VER, e sobre o qual nos interessa ESCREVER. Continua Agustina no seu «Dicionário Imperfeito»: “O que Souza-Cardoso pintou tem menos significado esteticamente do que o movimento que transcendeu uma educação, a tradição, em suma”. Cremos que somos o que fizeram de nós. Mas não seremos nós o que de nós fizermos? O que interessará talvez, tudo pesado, talvez sejam ambas as coisas: a capacidade de nos superarmos. E todavia, alheamo-nos de nós. Por comodidade, por conformidade, por apatia, “somos o que somos”.

O Amadeo que ecoa em Agustina é o que lhe lembra o caminho comum e solitário, talvez um pouco menos solitário só por nele terem passado outros caminheiros. Agustina imagina Amadeo: “Penso nele com emoção, sobretudo se o vejo nesses lugares de nascimento onde eu própria nasci. Tão eventuais e sossegados, onde não parece mexer uma folha sem o precedente de uma folha que mexe”. Eis o país em que todos nós vivemos, independentemente do país em que nascemos, Manhufe, Portugal, ou Paris… O Marão, Portugal ou Paris são um invisível “país gigante”. Nesse país, mal o caminho está feito, logo a urze o cobre, logo a multidão o silencia ou a onda o varre. Se um caminho é a repetição dos passos de quem o frequenta, quem o verá mal a urze o cobre, mal a multidão o ignora, mal a onda o varre? INVISÍVEL. E de repente, AMADEO: “o salto compacto e desmesurado, aquele olhar para o interior de si mesmo como para o estranho mais consumado”.

Assegura, todavia, Agustina que é da força desse salto INSÓLITO, que sai uma estranha trilogia: “a revolução dos COSTUMES, a obra de ARTE e o delgado fio que nos liga à FELICIDADE”. Nisso acreditamos também. Por isso é este número da PONTES DE VISTA dedicado a AMADEO DE SOUZA-CARDOSO, exemplo maior de todos os caminheiros insolentes que existiram, existem e persistem.