Arquivo da categoria: – Nº2 –

JORGE PALINHOS

 

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RODRIGO MICHELL DOS SANTOS ARAUJO

RODRIGO MICHELL DOS SANTOS ARAUJO é graduado em Letras pela Universidade Tiradentes (2010) e mestre em Letras-Estudos Literários (2014) pela Universidade Federal de Sergipe. Desenvolve pesquisas nas áreas de literatura brasileira contemporânea e filosofia, interessando-se pelos seguintes temas: poesia, haikai, literatura brasileira do século XX, teoria e crítica literárias, filosofia contemporânea, Martin Heidegger, ontologia, filosofia oriental, cinema oriental, diálogos literatura e filosofia. Atualmente mora em Portugal, na cidade do Porto, onde cursa doutoramento em Filosofia na Universidade do Porto.

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JORGE BASTOS DA SILVA

JORGE BASTOS DA SILVA é docente do Departamento de Estudos Anglo-Americanos da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. As suas áreas de investigação principais são a Literatura e a Cultura Inglesas, a História Intelectual, os Estudos sobre a Utopia e os Estudos de Tradução.

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OS TEARES DA MEMÓRIA: MNÉMOSINE E SUAS FILHAS

 

Ana Luísa Amaral

in Entre dois rios e outras noites, Campo das Letras, 2008

 

Desejava esquecer, mas elas não me deixam:

chegam com seu tear e sua mão cruel,

 

e sobre mim ensaiam um cansaço

que há séculos lhes tem sido alimento

 

Têm dentes ferozes e poderosas unhas

com que tocam a flauta e festejam o fuso,

 

e uns olhos muito belos, com íris poderosas,

de sobressaltar ondas, de desesperar ventos.

 

E as fontes enganosas onde encontram guarida

tingem-se com as cores da sombria memória

 

Não me deixam esquecer: só me trazem

a história dentro da própria história,

 

desejo incontrolável de contra mim ficar,

a horas muito breves, de desespero fundo,

 

a falar nem de nada, desejando por dentro

deixar de me sentir, ou então sentir tudo.

 

Não me deixam esquecer, e o seu tear agudo:

herança dessa mãe que sobre elas pousou,

 

que as fadou frias, belas, e ao gerá-las assim,

lançou no meu olhar a memória do mundo.

 

Pertencem-lhes as fontes, tão falsas e funestas

como funestos são os seus gritos sem som,

 

delas fazem brotar as águas mais avessas

com algas que me entrançam palavras e cabelos.

 

E eu que queria esquecer, viver num outro mar,

atravessar a nado os pinheiros mais altos,

 

sou condenada a dar-lhes o alimento azul

de que elas se alimentam: um cansaço de séculos.

 

Sou condenada a ver para além deste tempo,

através dos seus olhos de poderosa luz,

 

e as flautas que elas tocam e o fuso que festejam

não são flautas só fusos, mas lanças e muralhas.

 

Com elas me recordo, por elas me relembro

e invade-me a lembrança, exasperada, impura.

 

Desejava esquecer, mas elas não me deixam,

e a memória do mundo: uma pesada herança,

 

legado que não devo deixar a mais ninguém,

que não posso gastar conforme me apetece,

 

porque elas o governam em mil sabedoria:

obrigam-me a usá-lo contrário ao meu desejo,

 

e se o desejo às vezes, desviam-no de mim.

É sua mãe cruel que as governa e a mim.

 

E todas enredadas nesta teia de espelhos

sofremos igual sorte, temos o mesmo fim,

partilhamos da mesma vontade de esquecer.

 

Mas não o deixa ela, nem o permite a morte —

VERGÍLIO FERREIRA: A TRADUÇÃO, A GLÓRIA E OS PISTOLEIROS DA LITERATURA

Jorge Bastos da Silva

[No conspecto das obras de Vergílio Ferreira, Conta-corrente é aquela em que, de mistura com apontamentos de muito diversa índole, mais de espaço se arrolam as preferências do autor enquanto leitor: de Eça sobre Pessoa, de Clarice Lispector sobre Miguel Torga… ]

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RECENSÃO A JOSÉ GIL (2016), “RITMOS E VISÕES”, LISBOA, RELÓGIO D’ÁGUA

Vânia Duarte

[Ritmos e visões, de José Gil, é precisamente uma compilação de quatro ensaios em que se analisa, numa perspetiva crítico-filosófica, a obra de Fernando Pessoa. Como corpus de análise, o autor elegeu O livro do desassossego de Bernardo Soares, dois poemas de Fernando Pessoa – “A múmia” e “Ode marítima” – assim como artigos publicados na revista A Águia. Pontualmente são mencionadas outras obras como Fausto, Mensagem, Átrio, O caminho da serpente, com o intuito de contextualizar, clarificar ou corroborar afirmações. O livro parece disperso, mas há, como veremos, uma unidade que faz desses ensaios capítulos de uma reflexão encadeada.]

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VERGÍLIO FERREIRA E CLARICE LISPECTOR: CORRESPONDÊNCIAS COM O SILÊNCIO

Rodrigo Michell dos Santos Araujo

[Questão nuclear da obra vergiliana: já no primeiro volume de uma série diarística intitulada Conta-corrente (1993), que o autor mantém desde 1969, encontramos uma necessidade e urgência da escrita para (sobre)viver. Uma escrita desassossegada, uma urgência febril, muitas vezes acometida pela debilidade física: “precisava tanto de escrever, escrever […]. Escrever, escrever, como quem repete o orgasmo até deitar sangue. Desfazer-me em escrita […], repetir-me, esgotar-me rebentar da minha escrita de uma vez” (FERREIRA 1993: 181).]

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A ESCRITA NO ESPELHO OU ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE OS ENSAIOS “CARTA AO FUTURO” E “ARTE TEMPO” DE VERGÍLIO FERREIRA

Jorge Vicente Valentim

[Depreende-se, por conseguinte, que a escrita ensaística de Vergílio Ferreira mais se autentica como um discurso original, na medida em que se afasta dos padrões científicos e metodológicos tradicionais e em que, no seu conteúdo, procura tratar de alguns dos tópicos mais fulcrais de sua obra, inclusive aqueles abordados pela sua ficção. Se o romance foi o gênero privilegiado para expor a problematização e o exame de alguns temas da existência humana e todas as suas consequentes contingências1, não será improducente pensar que o ensaio foi o espaço consagrado para revelações existentes na sua criação literária.]

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O CAMINHO ENQUANTO ARTE

Jorge Palinhos

[Caminhar é uma atividade física em que o corpo humano, sustentado apenas pelos membros inferiores, se move no espaço concreto, fazendo avançar à vez cada pé. É um gesto de tal forma quotidiano que raramente nos lembramos de que houve uma altura em que tivemos de o aprender, com grande dificuldade e alguma audácia. É, possivelmente, o primeiro e o mais comum perigo que todos os seres humanos enfrentam no início da sua vida, e também aquele que mais rapidamente se esquece à medida que os passos se tornam centrais na nossa existência.]

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SOBRE UM ANTIGO LIVRO DE CHARLES DU BOS

Arnaldo de Pinho

[A extinta Livraria Morais, ligada à revista O Tempo e o Modo, publicou em 1961 um texto intitulado O que é a Literatura. Trata-se dum conjunto de quatro conferências, pronunciadas pelo autor na Universidade americana de Notre Dame, em 1938.]

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