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SOB A BARBÁRIE, UMA PEQUENA LUZ: A AMBIGUIDADE DO VISÍVEL NO ÚLTIMO ROMANCE DE VERGÍLIO FERREIRA

Jorge Teixeira da Cunha

O último romance de Vergílio Ferreira Na tua face (1993) é, do início ao fim, uma variação sobre o horror do visível. Quem se abeira da obra para a fruir como uma estética teológica não pode perder de vista este ambiente que se pode classificar entre o irónico e o decadente. A alusão à experiência religiosa está presente a cada página, mas trata-se de uma mística de inquietação e de desencanto em que somente a porta da Natureza, que sempre escreve com maiúscula, pode dar entrada numa muito desconfiada “eudaimonia”.

Neste ponto, Vergílio Ferreira mostra todo o seu mal-estar com a cultura ocidental que, desde a Grécia, se funda no visível, tanto a nível do pensamento conceptual como da experiência. Mesmo a experiência religiosa, seja pagã seja cristã, é experiência do visível, de um visível estendido mesmo ao outro mundo, mediante a afirmação de céus imaginários e outras construções cénicas para a real ou suposta vida verdadeira em que a nossa tradição religiosa foi muito produtiva. Tanto a estética, como a ética como a teologia vergiliana são uma constante ironia sobre essas projeções da alma e essas construções da cultura. E parece não haver nada mais para viver sensatamente do que a paciência infindável com o absurdo quotidiano.

 

Sete anos de luta com o anjo

 

A questão do divino é uma luta vergiliana de Jacob com o seu anjo. Talvez a escolha do nome “Ângela”, para a personagem visível mais destacada da obra, seja uma alusão a esta luta com um anjo, metáfora pela qual a Bíblia fala da experiência religiosa de Jacob. Desde o acróstico colocado à cabeça do romance, “Viditque Deus cuncta quae fecerat et erant valde bona” (Génesis 1:31), que a amarga ironia está presente. A alusão continuada a uma conceptualização de Deus existencialmente insignificante aparece em cada página. É a justiça do povo que manifesta Deus, como no caso da alcunha da camponesa muito feia a quem chamavam “focinho”, diminutivo de “focinho de porco” (FERREIRA 1993: 23 s). Esse facto é visto como uma maldição cultural, pois mostra uma transgressão e uma culpa. De facto, Deus separou normativamente as espécies e a criatura humana em questão tinha-se apropriado do nome que lhe não pertence! Como essa, havia muitas alcunhas na aldeia remota do país incivilizado daquela povoação. Claro que há outros nomes para tratar nos momentos de “cerimónia com Deus e com a lei que também era divina”. Mas esse outro nível da cultura é pior do que o primeiro.

Esse Deus que a cultura supõe subjacente à vida é totalmente insignificante. O adolescente Luc chega um dia a casa com as perguntas da aula de filosofia e interroga Daniel sobre a matéria. “Que te disse o professor (…) Disse-me assim: Deus é preciso (…)”. A resposta do pai-narrador é talvez o pensamento teológico de Vergílio: “Lembrei-me agora que podias responder de outra forma. Podias dizer-lhe que como filósofo tem de se demonstrar, mas se se demonstrasse, toda a gente ficava com a mesma opinião” (idem: 160 s). Por isso, Deus fica encerrado na contradição. Não se pode demonstrar pois, nesse caso, seria uma evidência. Mas não se pode ignorar, pois aflora espontaneamente ao espírito, como acontece com ambos os filhos do narrador, que são, apesar de tudo, ambos crentes.

Esta é certamente a luta de Vergílio, em cuja obra a frequência de alusões ao divino é indiscutível. Porém, não há na obra uma possibilidade racional de integrar esta experiência irreprimível. Em Na tua face há duas saídas. Luc, o inquieto jovem, é o símbolo da impossibilidade conceptual de pensar o divino, e acaba no suicídio. Mas há também Luz, a filha fotógrafa que é crente, e que encontra o sentido da sua crença na experiência artística. “Gostava de ter um apartamento maior, a câmara escura é um cubículo e é onde mais gosto de estar, Deus está lá comigo. Pois tu és crente? estranhou Ângela. Eu penso e digo fiat e o Mundo nasce. Todos trazemos Deus connosco mas não o sabemos. Num bolso, num sapato, num maço de cigarros. No estômago, entre as pernas. Nos dentes. Tudo aí lhe dá jeito para ser. Deus portátil, sempre à mão. No riso, no ódio, mas já chega de pregador. Normalmente, tenho-o entre as pernas mas às vezes meto-o no saco quando vou sair. E às vezes levo só metade, deixo aqui a outra metade para o caso de o perder. Quando não tenho certas visitas dependuro-o na cozinha. Ou faço o refogado com ele. Fica com melhor paladar. E perguntas-me tu se sou crente. Tu mesma trazes aí Deus ao pescoço nesse colar horrível que já te conheço desde miúda” (idem: 121 s).

Para lá da barbárie do visível, Vergílio Ferreira supõe, pois, uma estética do divino que é um aspecto pouco desenvolvido nesta obra.

 

Em lugar de Raquel lhe dava Lia

 

O horror do visível mostra-se também na experiência da ação. O mais sintomático deste aspeto é a ambivalência das duas personagens femininas com quem interage Daniel. Voltamos à alegoria do Jacob bíblico que amava Raquel e que se vê marido de Lia, a mulher sem identidade que lhe é confiada como que por vingança do destino. Uma é a pessoa mais concreta da esposa “Ângela”; outra é a mulher invisível, entrevista no início e no fim da narrativa, “Bárbara”. Entre as duas corre um complexo fio que liga a realidade visível, na sua crueza, e a realidade inacessível. O leitor tem acesso a Ângela mediante a descrição do narrador e mediante o seu retrato fantasmático que lhe faz Daniel, enquanto vago artista entre o caricaturista e o pintor. Num caso aparece a sua vulgaridade: uma mulher sem atributos, vivendo uma vida profissional mediana, consumindo o empréstimo que lhe é feito pela sua frequência dos autores clássicos que ensina na universidade. Sob o pincel de Dani sobressai a fealdade física e a disformidade moral de Ângela. Perante a tristeza de Luc, ao ver o quadro sobre o cavalete que o pai acabava de pintar, ouviu a explicação: “Eu não pintei a cara da tua mãe. Pintei só o horrível que lhe fica um pouco ao lado” (idem: 193). O caráter disforme vem da inautenticidade de quem vive uma vida emprestada e vulgar: a escola, o casamento, a maternidade vivida como quem se desobriga, a imposição dos nomes aos filhos em nome dessa superestrutura cultural (Lucrécio, do poeta latino; Luzia, nome cristão de mau gosto), nomes que acabam por ser um destino para os filhos. O rapaz acaba morto, à imagem do poeta latino; a filha, por sua vez, acaba por ser a única personagem que, apesar da ambiguidade (luz, Lúcifer), cai para o lado da luz e do sentido.

Por outro lado, Daniel vive dilacerado entre a esposa visível e a mulher do sonho que o destino lhe sonega cruelmente. Bárbara é uma personagem de diversas obras vergilianas e nesta perfaz uma inclusão entre a primeira e a última página da obra. Na página final, desaparece na imensidão da orla marítima, deixando à guarda de Daniel o filho que trouxera de longe, disforme como todo o visível, em testemunho do encontro impossível e do caminho que a vida faz aparentemente sem os viventes.

 

Entre o horror do visível e a indisponibilidade do invisível situa-se a morte. “A morte é verdadeiramente o único problema do homem” (idem: 145). A vida, porém, conduz o seu próprio destino, apesar da barbárie. Isso está patente na cena final em que Luz anuncia ao seu pai “Vou ter um filho”. Um filho sem pai, quer dizer, sem a disformidade do património cultural, um filho inocente da própria Natureza (ou da vida), um vivente que emerge para lá da morte real e da morte cultural de quem o precedeu. Vergílio Ferreira como que deixa aqui uma confissão final da sua confiança num futuro que já não lhe pertence, que não pertence a nenhum vivente concreto.

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VERGÍLIO FERREIRA – A ALEGRIA DE EXISTIR: BREVE, DENSA, VALIDADA

José Gama

A leitura de Alegria breve constitui um momento ímpar de reflexão e de interrogação sobre a existência humana, guiado pela mão hábil e invasiva de Vergílio Ferreira, naquele modo solene e insatisfeito que ele consegue imprimir à sua escrita como ninguém. A releitura adquire ainda uma dimensão mais forte, se for guiada, logo à partida, por aquele sentido de reavaliação de tudo o que acompanha a despedida da vida de toda uma aldeia, em que a grandeza e a incapacidade do homem parecem atingir os seus limites…

Toda a solidão do mundo entrou dentro de mim. E no entanto, este orgulho triste, inchando – sou o Homem!

Mas de súbito ergo-me, (…) são os passos do primeiro homem do mundo. Uma alegria terrível inunda-me. É uma alegria absoluta, imperiosa e todavia calma como a lentidão da terra (FERREIRA 1986: 15, 17).

Ressoam na obra do autor os ecos da vitória do homem sobre a terra, como um deus, quase uma divindade… – mas sentindo bem fundo o peso e o mistério da solidão, do silêncio ensurdecedor da noite e da natureza. É uma solidão acompanhada, que não consegue libertar-se da memória, e que se alimenta de interrogações e de esperança na vida e no futuro – um filho desconhecido que há de chegar, como lembra com insistência, alimentando a esperança da vida que tem de continuar.

O balanço da vida transcorre no interior profundo do país, numa ruralidade pacata e arcaica, que é repentinamente assolada pelas máquinas do progresso. A exploração mineira vem perturbar o ritmo e os valores tradicionais que conduziam as pessoas e regulavam a trama das relações sociais.

Aí emerge a densidade e profundidade da revelação do Homem, do “sentido do homem” – “sentido misterioso de tragédia, aberração, delicada ternura e verdade” (idem: 46). Por mais que se reconheça “perfeito, uno, denso, convergente a uma direcção” (idem: 60), a insatisfação do narrador e a incomodidade perante a vida e o universo adensam a descoberta de que “a vida é excessiva e não é justa ou injusta” (idem: 112). Nesse estar aí, em contínua exposição e convivência, vai sendo maturado o desafio que lhe invade tudo, as entranhas e o pensamento. O olhar da evidência também o incomoda, também o seduz, com um silêncio que é “opaco” e que “brilha” intensamente.

“A terra é grande, o céu é imenso. Céu vazio. Eu só” (idem: 52).

Chega a um ponto em que as questões puramente humanas se esgotam, nas relações com os outros e até mesmo na vivência do amor…

Não tenho problema nenhum. Estou é cansado. Todas as questões se me esgotaram, mas fiquei ainda vivo. De uma a uma esgotaram-se e agora estou só em face do universo. Reconstruir tudo desde as origens, desde a primeira palavra. Tudo o quê? É necessário que tudo seja novo, inteiramente novo e imprevisível (idem: 115).

E uma questão de fundo, indecifrável mas persistente, reaparece como tema frequente de conversa e de reflexão – um esquema invisível orienta o seu deambular, verdade antiquíssima e intocável – “Deus não tem nome, Deus é o que é. É preciso recriá-lo a cada hora, achá-lo antes de o reconhecer” (idem: 117). Mas só raramente a evidência aparece. “Todas as religiões estarão em crise. Mas não o sagrado que as justifica” (idem: 160).

A questão de Deus insinua-se das mais variadas formas, nas interrogações que o quotidiano da vida provoca, comandada pelas práticas religiosas e até mesmo pelo som do sino da torre da igreja. As pessoas constroem de um certo modo infantil as fabulações sobre Deus e a religião. Mas “Deus está a mais na verdade de um corpo. Está sempre a mais na verdade de um homem” (idem: 168). É que “um deus assusta, mesmo que esse deus sejamos nós” (idem: 172).

E, no fim de tudo, no cansaço do corpo velho, mesmo que por dentro não tenha idade nenhuma, a sabedoria de Agostinho vem à memória, com uma anuência implícita – “Et inquietum est cor nostrum donec requiescat in te. – Amen” (idem: 179).

A alegria breve insinua-se de todos os modos, ainda que breves, na teimosia da esperança. Primeiro, a passagem do testemunho na continuação da vida, a cada passo significada no filho que há-de vir, e a quem tem de transmitir tudo o que de bom a existência lhe proporcionou. A esperança é fundamental, mas também com a novidade da criação, até mesmo de uma religião nova, que responda ao grito de desespero que lhe sai da alma, no isolamento humano a que vai ficando reduzido na aldeia deserta: “Sou o deus único, o deus final, a terra não pode morrer” (idem: 214). Depois, “há perguntas sem resposta”, as respostas nunca se conquistam, a vida é o que é, e na avaliação final, na passagem do testemunho, pode confessar serenamente: “Foi bom ter nascido, para ver como isto era, para matar a curiosidade. Fugidia alegria, luz breve. Foi a que me coube, em paz a aceito. E em cansaço. Em paz” (idem: 221).

Eis o Homem, Vergílio Ferreira, que se nos desvenda, com a grandeza nua da sua mensagem, que ele procurou situar no mundo dos homens e na imensidão do universo:

É no silêncio que eu vivo, aprenderei outra linguagem? Não há palavras ainda para inventar o mundo novo. Como estou cansado. Paro de cavar, olho a montanha. Os dois picos erguem-se ao longe, hieráticos, com a solenidade de um universo vazio. Foi a voz que aprendi, essa, da grandeza e do silêncio, de um mundo primitivo. Depois a voz deu a volta pelo labirinto da vida – eis que regressa ao ponto original. (…) Acaso o meu início, o que transmitirei ao meu filho (idem: 219-20).

E conclui a obra: “Recomeça tudo de novo. A terra não pode morrer. (…) Amanhã é um dia novo” (idem: 222).

Bibliografia

FERREIRA, Vergílio (1986), Alegria breve, Lisboa, Bertrand / Amigos do Livro, TV-Guia.

O PRIMEIRO SORRISO DO OCIDENTE

Hugo Monteiro

[O sorriso, o primeiro do Ocidente, surge-nos assim como o assomo de um Adeus que atravessa o tempo em saudação – gesto indistinto no excesso de um encontro que, em última análise, leva o próprio tempo atrás de si, revelando que “todos os séculos do passado se conglomeram ali, no instantâneo presente”]

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OS TEARES DA MEMÓRIA: MNÉMOSINE E SUAS FILHAS

 

Ana Luísa Amaral

in Entre dois rios e outras noites, Campo das Letras, 2008

 

Desejava esquecer, mas elas não me deixam:

chegam com seu tear e sua mão cruel,

 

e sobre mim ensaiam um cansaço

que há séculos lhes tem sido alimento

 

Têm dentes ferozes e poderosas unhas

com que tocam a flauta e festejam o fuso,

 

e uns olhos muito belos, com íris poderosas,

de sobressaltar ondas, de desesperar ventos.

 

E as fontes enganosas onde encontram guarida

tingem-se com as cores da sombria memória

 

Não me deixam esquecer: só me trazem

a história dentro da própria história,

 

desejo incontrolável de contra mim ficar,

a horas muito breves, de desespero fundo,

 

a falar nem de nada, desejando por dentro

deixar de me sentir, ou então sentir tudo.

 

Não me deixam esquecer, e o seu tear agudo:

herança dessa mãe que sobre elas pousou,

 

que as fadou frias, belas, e ao gerá-las assim,

lançou no meu olhar a memória do mundo.

 

Pertencem-lhes as fontes, tão falsas e funestas

como funestos são os seus gritos sem som,

 

delas fazem brotar as águas mais avessas

com algas que me entrançam palavras e cabelos.

 

E eu que queria esquecer, viver num outro mar,

atravessar a nado os pinheiros mais altos,

 

sou condenada a dar-lhes o alimento azul

de que elas se alimentam: um cansaço de séculos.

 

Sou condenada a ver para além deste tempo,

através dos seus olhos de poderosa luz,

 

e as flautas que elas tocam e o fuso que festejam

não são flautas só fusos, mas lanças e muralhas.

 

Com elas me recordo, por elas me relembro

e invade-me a lembrança, exasperada, impura.

 

Desejava esquecer, mas elas não me deixam,

e a memória do mundo: uma pesada herança,

 

legado que não devo deixar a mais ninguém,

que não posso gastar conforme me apetece,

 

porque elas o governam em mil sabedoria:

obrigam-me a usá-lo contrário ao meu desejo,

 

e se o desejo às vezes, desviam-no de mim.

É sua mãe cruel que as governa e a mim.

 

E todas enredadas nesta teia de espelhos

sofremos igual sorte, temos o mesmo fim,

partilhamos da mesma vontade de esquecer.

 

Mas não o deixa ela, nem o permite a morte —

O CAMINHO ENQUANTO ARTE

Jorge Palinhos

[Caminhar é uma atividade física em que o corpo humano, sustentado apenas pelos membros inferiores, se move no espaço concreto, fazendo avançar à vez cada pé. É um gesto de tal forma quotidiano que raramente nos lembramos de que houve uma altura em que tivemos de o aprender, com grande dificuldade e alguma audácia. É, possivelmente, o primeiro e o mais comum perigo que todos os seres humanos enfrentam no início da sua vida, e também aquele que mais rapidamente se esquece à medida que os passos se tornam centrais na nossa existência.]

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