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RECENSÃO A JULIO CORTÁZAR (2016), “AULAS DE LITERATURA – BERKELEY, 1980”, LISBOA, CAVALO DE FERRO

Ana Catarina Milhazes

À obra de Julio Cortázar já anteriormente publicada pela Cavalo de Ferro, juntou-se mais um título, Aulas de Literatura – Berkeley, 1980, que nos dá as oito aulas que o autor proferiu na Universidade da Califórnia, quatro anos antes da sua morte. Entre Outubro e Novembro, às quintas-feiras, cerca de uma centena de alunos do Departamento de Estudos Hispânicos e Portugueses assistiram às aulas de duas horas do escritor argentino. Para além destas, o livro inclui ainda, em apêndice, duas conferências públicas.

Os leitores de Cortázar não irão talvez estranhar uma certa guerra de antagonismos que se trava no espaço da universidade: o cronópio entrou no covil dos famas. Cronópios e famas (há ainda as esperanças) são dois personagens-tipo, centrais na obra de Cortázar. Personagens que se tornaram também temperamentos e que, por isso, apareceram outras vezes com a função gramatical de adjectivos. Dizer que X é cronópio é classificá-lo como um ser ingénuo e hipersensível, cheio de graça e disposição para o jogo. As aulas de Cortázar, em Berkeley, foram cronopiais.

O prefácio de Miguel Filipe Mochila, de quem é também a tradução, logo encaminha o leitor para o que vai encontrar: “o despretensiosismo teórico e o tom bem-humorado e acessível das aulas” situa Cortázar e as suas lições à margem da metodologia represada do manual e da sebenta, e, o melhor de tudo, da soberba do académico. Isto, por outras palavras, é antes de mais um convite ao leitor-comum, que não deve ser levado a pensar que estas aulas são apenas para os discentes dos cursos de estudos literários. Até porque estas aulas não têm (nem quiseram ter) aquele sentido gordo que as liga a ‘sapiência’.

A passagem de Cortázar desestabiliza todas as ordens possíveis da academia: a do espaço, a do tempo e a do modo. O discurso ex catedra é-lhe perfeitamente desconfortável e é mais do que uma vez que faz referência ao facto de ser a sombra das árvores, no jardim do campus, muito mais adequada às aulas, onde pudessem todos, ele e os alunos, fazer um grande círculo, que os aproximasse. No covil dos famas, todavia, a sombra e o círculo não são os espaços convencionais de trabalho. Os famas definiram que a duração das aulas é de 2h, mas Cortázar, agitado e sensível como os cronópios, não quer tornar-se entediante, pelo que se lembra com frequência de perguntar aos alunos se está a maçá-los e preferem fazer uma pausa. Os famas também lhe indicaram que deve receber os alunos no seu gabinete, que meia-hora para cada deve chegar, embora Cortázar se sinta como “um dentista que a cada meia hora espera um paciente” (p. 45). Como o tempo e o espaço da academia não são favoráveis à relação professor/aluno, Cortázar reserva uma parte das aulas (sem excepção numa única aula) para o debate com os alunos. Tem também disponibilidade para o que está do lado de lá da formalidade: recebe presentes dos seus alunos – entre eles, um unicórnio, espécie por si muito estimada – e aparece em pelo menos uma festa, de Halloween, mascarado com capa preta e dentes vampirescos.

Escritor do acaso (e mais ainda da serendipidade) e do lúdico, Cortázar sabe que a metodologia, anónima e distante, não é ideal para todos os níveis da compreensão. Não nos deve isto levar a pensar que Cortázar não faz esforço para ser sistemático: a divisão exposição/debate das aulas, o faseamento triádico que faz do seu comportamento enquanto escritor, a divisão temática das aulas têm de nos fazer pensar o contrário. Embora seja um pouco relutante em fazer referências a aspectos pessoais – ele, que sempre disse também não ter qualquer compromisso autobiográfico com a escrita –, o tipo de discussão que quer estimular obriga-o a isso. Que outros temas exigem tanta subjectividade como a musicalidade, o humor, o lúdico e o erotismo, tópicos que definiu para as suas aulas? Basta dizer que 1) não há forma mais eficaz de atingir o pathos do que pela musicalidade; 2) que uma teoria do humor (ou do cómico) nem o maior génio da teoria ‘literária’ conseguiu sistematizar (como parodiava U. Eco, sugerindo que a Comédia de Aristóteles não teria sido perdida por acaso); 3) que sobre o lúdico na linguagem ainda é quase pelos dedos das mãos que se conta o número de obras relevantes (ainda agora); e 4) que o erotismo é uma subtileza que está mais no ausente do que no presente (aliás, como no cómico). Não se pode, pois, dizer que seja um acaso os famas académicos praticamente não tocarem nestes tópicos. Os famas gostam do plano, do esquema, do método. Os tópicos que Cortázar escolheu não são de todo os preferidos dos famas. Mas porque os escolheu Cortázar? Porque é um cronópio, pois claro, porque prefere a alegria, o afecto, a espontaneidade e o acaso. Porque, como disse o argentino, suspeita da existência de uma ordem mais secreta e menos comunicável – qualquer coisa que se aproxima desse oxímoro da “lógica do acaso”.

Não é uma desautorização juvenil a de Cortázar, mas os instrumentos que servem os famas não são de facto os que servem os cronópios. Da academia dispensa o espaço, o tempo e os métodos. Aproveita apenas o que de melhor lá encontra: o afecto. É que, debaixo dos preconceitos, está normalmente isso: uma total falta de ideologia e uma tremenda necessidade de afecto. Cortázar quis que a sua escrita fosse qualquer coisa que nos resgate da seriedade. O afecto, o lúdico e o erótico são talvez a melhor forma de demolir preconceitos, padrões, autoridades, coisas fundamentais, incontornáveis, respeitáveis, seriíssimas. A musicalidade, o humor, o lúdico e o erotismo são coisas que os famas precisam e os cronópios têm para dar. Creio que todos estes tópicos têm em comum o facto de, no plano literário, só poderem ser explicados a partir das relações afectivas com a linguagem. Foi daí que partiu Cortázar: criar afecto, fazer gostar. Não dele, claro, mas das palavras (mas nós gostamos de quem nos ensina a gostar). É assim que as perguntas inicialmente superficiais dos alunos revelam, depois, (ainda que se trate apenas de oito aulas) maior autonomia, entusiasmo e proximidade. Aliás, as perguntas das aulas iniciais só demonstram aquilo a que estariam habituados os alunos: terra seca, de fórmulas e preceitos frouxos (pelo menos para aqueles que não os sabem utilizar) – o que, aliás, deita por terra o mito das “grandes universidades americanas”, tratando-se a U. Califórnia de uma das que habitualmente compõe esse mito. A significativa mudança de atitude dos alunos deve-se ao facto de ficarmos com a sensação de que, naquelas aulas, foi sulcada terra para abrir novos caminhos. O que a educação tem dado é resumo e esquema, e o que se traz das aulas são respostas. Das de Cortázar, todavia, os alunos levavam aquilo que faz deles ‘estudantes’: perguntas. Cortázar é desafiador e, além disso, terno. A delicadeza é clara na sua retórica de atenuantes: “[…] no pouco tempo que falta […] talvez fosse mais agradável, também para vocês, se pudesse responder a alguma pergunta […]”; respondendo a uma aluna: “[…] como nos vamos ocupar especificamente do Livro de Manuel numa das próximas aulas, preferia não me antecipar […]. De modo que, se não for inconveniente, vê-lo-emos quando chegar o momento […]” (pp. 176/7). O estímulo vem em parte da amizade – que bonita é a despedida de Cortázar: “[…] peço[-vos] que aceitem cada novo livro meu como se fosse uma carta dirigida a cada um de vós. Quero dizer que agradeço profundamente a fidelidade e a atenção […]. Acredito que somos todos muito amigos. Eu gosto muito de vocês e sinto-me grato” (p. 279). Mas o estímulo vem também da desconfiança em relação ao gratuito, quer no sentido do que é ofertado, quer no do que é fácil. Antes de mais, desconfiança da língua: “[…] que língua deve [o escritor] usar? É aí que começam os problemas, visto que se utilizar a língua que expressa esse mundo que está a atacar, a língua acabará por traí-lo. Como poderá denunciar algo com as ferramentas que servem o inimigo, isto é, uma língua estratificada, codificada, um estilo que conta já com os seus mestres e discípulos?”. A este respeito, o argentino lembra as palavras de Oliveira, em Rayuela: “[…] antes de a usarmos [à língua] é preciso ter em conta a possibilidade de que nos engane, de estarmos convencidos que pensamos por nós próprios quando na realidade é a linguagem que pensa por nós, com estereótipos e fórmulas que nos chegam da noite dos tempos […]” (p. 222). Fórmulas que a Academia, guardiã da tradição, perpetua ciclicamente. Uma vez por outra, aparecem os cronópios que marcam o princípio de um novo ciclo. O propósito deles não é ruptural, mas os famas preferem ter os armários arrumados, pelo que fecham uma gaveta e abrem outra. O modo dos cronópios, todavia, é outro mais discreto: ser menos rígido, deixar escapar uma graça, mexer onde não pode, com a ingenuidade de quem quer conhecer os limites.

Argentino nos Estados-Unidos, Cortázar começa por enfraquecer o que em grande parte o leva até ali: o movimento do “Boom Latino-Americano”. Cortázar explica, de pronto, que esse boom não existiu, que é campanha do mundo editorial e do mundo académico (do norte-americano sobretudo, que sempre quis distinguir uma América do Norte de uma América do Sul). Depois, aproxima o cânone da periferia: fala de Borges, Fuentes, García Márquez, Neruda, Octavio Paz, Alejo Carpentier, mas ao lado de Macedonio Fernández, Ramón Gómez de la Serna e Roberto J. Pavró, por exemplo. A selecção, a escolha, é uma coisa terrivelmente injusta. Parece-me que Cortázar se comportou na vida como sempre se comportava em frente a um croque-monsieur com um ovo por cima. E o dilema era este: ou Cortázar cortava logo o ovo, que se espalhava pelo prato e deixava a sanduiche melada, com o sabor do ovo a sobrepor-se ao do queijo e do fiambre, ou ia molhando nele “un pancito con la mano”, que lhe sabia muito bem, mas depois tinha de comer a sanduiche sem ovo. A escolha significa muitas vezes deixar outra coisa igualmente boa de parte. Creio que é também por isto que os seus cronópios são alegres, mas os seus famas são bondosos. Os famas têm características que lhe são pessoalmente mais estranhas, mas não são maus, fá-los bondosos, menos patetas, mais sérios, mas com boas intenções. O cronópio não consegue, por isso, ser hostil no covil dos famas. Os famas não o merecem – pelo menos, alguns deles. O covil dos famas é organizado e sossegado. Como diz Cortázar, nas Historias de cronopios y de famas: “las casas de los famas son ordenadas y silenciosas, mientras en las de los cronopios hay gran bulla y puertas que golpean. Los vecinos se quejan siempre de los cronopios, y los famas mueven la cabeza comprensivamente y van a ver si las etiquetas están todas en su sitio”. Muita ordem torna os famas taciturnos, por vezes. É que há coisas que não cabem só numa etiqueta, como a literatura, que é tanto mais eterna quanto mais histórica, tanto mais verdadeira quanto mais ficcional, tanto mais elevada quanto mais rasteira e humilde. Quando os famas estão cansados, tristes e desmotivados, a meiguice dos cronópios é um novo sopro de vida. Creio que é talvez aí que ambos se ajudam um ao outro, ligando a ternura à verdade. Como nas Historias, outra vez: “el fama se quejaba, envuelto en su sangre y su tristeza. Los cronopios vinieron furtivamente […] y lo compadecían, diciéndole así: – Cronopio, cronopio, cronopio. Y el fama comprendía, y su soledad era menos amarga”.

 

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